Por certa falta de assunto em plena Copa do Mundo, a imprensa brasileira decidiu avaliar os 20 anos do Plano Real, lançado no governo Itamar Franco, quando era ministro da Fazenda o professor FHCardoso, naquele mesmo ano de 1994 eleito para o Palácio do Planalto.
Segundo as lembranças da época, a inflação havia chegado a 85% ao mês. Então o governo cortou três zeros do cruzeiro e criou a URV (unidade de referência de valor), que serviu à transição para o real, nascido valendo mais do que o dólar (a paridade inicial era 85 centavos de dólar por R$ 1). Depois, o dólar andou perto de R$ 4. Hoje está pouco acima de R$ 2, mas o controle cambial exige um parto diário do pessoal do Banco Central.
O Plano Real foi uma baita conquista. Nos últimos 20 anos, a inflação andou voando baixo e ajudou a recuperar o valor dos salários. Mas não há economia em que não ocorra a valorização das mercadorias e a consequente depreciação da moeda. O nome desse fenômeno é inflação.
A inflação é uma pedrinha no nosso sapato. Não nos impede de caminhar, mas incomoda e, além de machucar, pode dificultar nossa liberdade de movimentos e restringir nossa capacidade de fazer negócios, realizar viagens, receber investimentos etc.
No sapato do rico, a pedrinha faz cócegas. No sapato do pobre, vira ferida, calo. Quem tem dinheiro se aproveita da inflação para ganhar mais dinheiro. Quem vive de salário ou de honorários com reajuste anual, está ferrado.
E se a pedrinha virar uma pedra maior a ponto de lembrar uma daquelas bolas de ferro acorrentadas às pernas dos prisioneiros de antigamente? É aí que mora o perigo. Por isso os governos tanto se empenham em segurar a inflação.
Uma pedra/pedrinha de 0,5% ao mês é o teto máximo suportável por uma economia estável. Veja-se o esforço do atual governo brasileiro para impedir que os 0,5% ao mês se acumulem a ponto de ultrapassar o teto de 6,5% ao ano.
O ideal é que a inflação nunca passe de 5% ao ano. O nível mais confortável é 2% a 3% ao ano, ou seja, algo como 0,2% ao mês. Assim os reajustes de preços não canibalizam os rendimentos dos trabalhadores, que não precisam ficar brigando ou até fazendo greve por reajustes de ridículos 8% a 10%.
A dificuldade em segurar a inflação torna os governos vulneráveis aos ataques dos seus adversários políticos, que se aproveitam até de um furinho na meia para jogar pedra no trabalho de quem está no poder.
No momento, os críticos dizem que o governo Dilma está mantendo a inflação “represada” mediante controles de tarifas e, especialmente, dos preços dos combustíveis. Evidentemente, os críticos são adeptos do livre mercado, no qual se dão especialmente bem os cartéis, os oligopólios e os que possuem “bala na agulha”.
Ora, do ponto de vista da maioria da população, bendito o governo com o poder de controlar os preços. Ao fazer isso, ele está zelando pelo poder aquisitivo dos mais pobres e impedindo que os mais ricos aumentem seus ganhos. “Tudo pelo social”, já dizia o eslogan do governo Sarney (1985-1990).
No caso dos combustíveis, cujos preços influenciam os custos de todos os serviços e mercadorias, os críticos (neoliberais de carteirinha ou de aluguel) dizem que o governo vem sobrecarregando a semiprivada Petrobras com a tarefa de segurar a inflação. Para eles, a BR devia elevar seus preços para garantir altos dividendos aos seus acionistas, investidores e especuladores.
Sem essa! Ainda bem que existe no Brasil uma empresa capaz desse papel. Se a Petrobras se orientar só pela cartilha neoliberal, seus preços vão subir e ficarão oscilando “com viés de alta”, e estaremos fritos, pois todos os preços – alimentos, alugueis, roupas, transportes, lazer – irão se orientar sempre para cima. Aliás, com suas reservas de petróleo, o Brasil tem condições de oferecer à sua população combustíveis mais baratos do que a maioria dos países produtores.
A metáfora da pedrinha no sapato é interessante, pois se refere à experiência pessoal de cada cidadão, consumidor ou trabalhador. No entanto, do ponto de vista da administração da política econômica, a inflação é tipo fera indomável que não se sujeita a controles de entes sem credibilidade, ainda mais em economias mais jovens, que vivem as turbulências do crescimento.
Não é por outro motivo que a inflação é representada pelos cartunistas como um dragão poderoso que cospe fogo enquanto sacode a cauda eriçada. A Argentina está passando por um processo desse tipo. A Venezuela idem. O Brasil vai se defendendo.
Entre nós brasileiros não há risco aparente de perda de controle da gestão econômica, mas há uma parcela da classe política e da população descontente com a marcha lenta da economia, o progresso da carestia, a demora na conclusão de obras de infraestrutura e a morosidade na solução de problemas em áreas básicas como saúde e educação.
Finda a Copa do Mundo e iniciada para valer a campanha eleitoral para renovação de mandatos, especialmente da Presidência da República, os brasileiros precisam meditar profundamente sobre para onde querem andar, se mais para a esquerda ou mais para a direita, sabendo-se desde já que sempre haverá uma ou outra pedrinha dentro do sapato e, também inevitavelmente, muitas pedras no caminho.
LEMBRETE DE OCASIÃO
Como exercício para desenvolver a consciência inflacionária, verifique qual a mercadoria mais barata entre seus gastos cotidianos. Um cafezinho? Uma caixa de fósforos? Um quilo de sal? Seja o que for, não existe nada que custe menos de R$ 1.