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Terça, 26 Janeiro 2021

Perdão, meritíssimos!

 

Algumas das lembranças mais fortes que tenho dos juízes em minha infância e adolescência estão no espaço geográfico onde cresci, num vale formado por dois rios, na encosta oriental da serra do Caparaó, sob a guarda do Pico da Bandeira.
 
 Ali chegaram os primeiros bandeirantes vindos das minas gerais em busca do mar (até hoje eles parecem procurar o mar) e fincaram acampamento, depois um rancho e em torno dele cresceu uma vila, depois a cidade que, reza a tradição oral, levou o nome de uma alegre cadela que caçava nas densas matas da região.
 
Mais tarde, no final do Século XIX e início do Século XX (quando os negros libertos não se submetiam aos caprichos dos fazendeiros e, a dar lucro aos seus antigos donos, preferiam gozar da liberdade reconquistada, exceto aqueles que se submetiam porque não conseguiam ver outro horizonte), chegaram colonos europeus, dentre eles um grande número de espanhóis, inclusive minha avó, que no navio do qual desembarcaram no porto de Itapemirim conheceu meu avô português.
 
Lembro do juiz que era pai de um colega meu de escola, o Sérgio. Passava uma imagem muito gostosa para todos nós. Morava numa casa “muito boa”, mas que hoje ainda está lá e percebo que, na verdade, era bem simples. Caminhava todos os dias de sua casa, perto da Praça da Maçonaria, até o fórum, que funcionava no andar de cima do prédio da prefeitura, no mesmo lugar onde o Executivo localiza-se até hoje. Era o tipo do juiz do povo.
 
Eu era bem menino nesse tempo e não tinha noção da complicada situação política que vivia o  Brasil. Na adolescência, já tive outras impressões. Lembro do primeiro júri que assisti e fiquei impressionado com o embate entre o advogado e o promotor, que resultou na absolvição de um filho que havia matado o próprio pai violento com a família. E o juiz era aquela figura pendular, que conduzia a reunião de julgamento.
 
Depois, lembro também do dia em que “seu” Antônio Lemos deu “abrigo político” ao Rachid Abdalla, o nosso homem d´A Voz da Cidade, em seu gabinete de prefeito, diante da ordem do juiz da época, um homem autoritário, bem nos moldes da ditadura, de prendê-lo por causa de um comentário com teor crítico. Não me lembro exatamente a causa, mas imagino que não tenha sido nada que justificasse a atitude, pois o Rachid nunca foi dado a comportamentos de confronto com autoridades constituídas.
 
E, depois, outra lembrança foi do juiz que, no auge da tentativa dos jovens de se liberarem da repressão, viesse ela de onde viesse, baixou uma portaria proibindo os namorados de se beijarem em público. O ardor da juventude, pelo jeito, incomodava (se não invejava) profundamente as carolas damas, muitas solteironas, na tradicional sociedade católica de minha cidade.
 
O tempo passou e eu nem imaginava que um dia pudesse penetrar o mundo das leis, como um forasteiro. Quem me atentou para isso foi o cacique Rogério Medeiros, em recente contato, e me fez pensar. Realmente, o mundo jurídico surpreende. O vetusto Palácio da Justiça, de onde o cidadão comum sempre quis passar distante, abriu-se para uma incomum movimentação de gente de todas as classes sociais e não apenas dos “poderosos” donos do capital com seu “poder” de controlar os poderes republicanos  e decidir sobre a vida e a morte dos comuns.
 
E, na semana que passou, recebi mais uma lição, ao participar de palestras de um primeiro encontro nacional de juízes da família, que, perdoem-me os organizadores, foi um retumbante fracasso de audiência, mas um estrondoso sucesso de ideias. Eu, cidadão comum, não versado no mundo das leis, fiquei fascinado com tudo o que eu vi, notadamente, a disposição dos magistrados de aproximarem o Direito do comum do povo, como gosta de dizer o atual presidente do Judiciário capixaba.
 
Surpreende-me, e eu já não deveria ter esse tipo de reação, a própria ignorância dos veículos de comunicação com o que está acontecendo. Mas é natural que, numa sociedade do espetáculo, onde os valores voláteis não se fundam, a mídia se comporte dessa forma. O que não compreendo é como nós, jornalistas, pretensos formadores de opinião, nos conformamos com esse tipo de coisa.
 
Tivéssemos nós o senso crítico de analisar fatos que ocorrem à margem da pauta dos editores e teríamos a chance de contribuir para mudar o estado de coisas, que parecem surpreender quando entornam, mas que trazem sempre o mesmo do mesmo. Nada novo, a não ser os atores de remakes de velhos filmes sociais, políticos e econômicos.
 
Vi, no encontro de juízes, que daria páginas e mais páginas dos grandes jornais (se não estivesse a própria família no centro de uma infame e (quase) inconsciente campanha de completa desarticulação, sem perceber a própria sociedade que está se destruindo por dentro, ao minar as células, que compõem seus tecidos, que formam os seus órgãos e, por fim, o corpo social), importantes exemplos de que nem tudo está perdido.
 
Encontrei magistrados despidos de suas togas, revelando-se na plenitude de sua humanidade, cortando na própria carne, ao defenderem, em contradição à doutrina das academias, por exemplo, que o que não está nos autos está, sim, no mundo, assim como nós deveríamos compreender que o que não está na pauta está, também, na ordem do dia, e não nos conformarmos em apenas cumprirmos com nossa obrigação burocrática de meros reprodutores da opinião dos que controlam todos os poderes da sociedade, até o poder de nos fazerem acreditarmos que somos nós, e não eles, os formadores de opinião.
 
A sociedade precisa redescobrir os juízes de pele e osso, os “pardais”, como ilustrou a coordenadora do encontro, ela mesma uma surpreendente magistrada com histórico de uma trajetória própria de construção de sua estrutura ética humana holística, e reconhecer-lhes o verdadeiro valor. Não, eles não são “pardais” em contraste com os “curiós” das gaiolas de ouro. Eles cantam numa outra dimensão, que somente a alma dos esfacelados consegue ouvir.
 
Isto é, sim, uma confissão de minha ignorância pretérita e um convite ao renascimento da percepção dos valores, que vão sustentar nossa civilização, se ela assim ainda pode ser chamada. Perdão, meritíssimos!  Há, sim, mundo além dos autos processuais. Perdão, colegas! Há, sim, vida além das redações e interesse social além das pautas. E valor além do monetário.
 


José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Escreve neste espaço, como colaborador, nos finais de semana. Contatos: [email protected]

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