A crise do PSDB é mais um sintoma do fim da era Paulo Hartung. É um salve-se quem puder, com movimentações que chegam a ser grosseiras e esticam demais a corda. O senador Ricardo Ferraço poderia ser o candidato do tal consenso, mas ele está pendurado nessa crise. Arrumou um discurso para o Espírito Santo e a imprensa capixaba comprou, mas que não pegou muito bem na mídia nacional e com o eleitorado.
Como só resta a PH só mais uma candidatura ao governo, ele precisa mais que nunca do PSDB. Não viveu até hoje sem o partido e não saberia se arranjar sem ele. Mas dá pra somar as rasteiras que ele deu nas lideranças do partido. As canelas do Luiz Paulo Vellozo Lucas já estão cheias de cicatrizes.
O secretário de Desenvolvimento Urbano do Ministério das Cidades é um excelente administrador, uma figura inteligente, mas que ante as pressões de PH sempre se apequenou. Já passou do tempo de ser governador do Espírito Santo, mas abriu mão de todas as oportunidades para manter-se nesse grupo. Mas parece que as caneladas seguidas que levou de Hartung, finalmente, o fizeram reagir.
Ninguém sabe o que vai acontecer depois de 2018. Quem é que sabe? Em entrevista a Século Diário, Luiz Paulo fala de novos personagens, mas de novo mesmo o PSDB só tem o deputado estadual Sergio Majeski (tem leitor que fica bravo quando insisto no nome do deputado, mas ele é hoje o único diferente desta nova geração política).
E por que o PSDB é tão importante para PH? Porque foi sempre no PSDB que ele conseguiu êxito, conseguiu mexer as peças aqui e se beneficiou das movimentações nacionais do partido, por isso não mede esforços para garantir a permanência do partido em seu grupo.
O fim da era Paulo Hartung está provocando uma corrida dessas lideranças que ficam em torno do governador. Para sobreviver, Colnago tem que ganhar a presidência do partido, porque Hartung deixou de ser confiável quando perdeu o posto de árbitro da política capixaba. Colnago, que sempre foi um grande promotor da política do governador, também ficaria viúvo se o projeto de PH não avançar. Nessa mesma condição estão outras lideranças que temem em se transformar “viúvas” de PH.
Ricardo Ferraço é jovem, na idade, mas em política já é considerado veterano. O pai, Theodorico Ferraço (DEM), lhe deu um mandato de vereador, depois de deputado e daí para frente Ricardo se uniu a Paulo Hartung para seguir seu próprio caminho. Só não chegou ao topo porque no grupo de Hartung a vegetação é rasteira. Parece ter voltado para os braços de PH, mas agora o próprio Hartung está lutando pela sobrevivência.
E como fica Ricardo? Ele tem que se reeleger senador, o que não será fácil. Aliás, depois de sua estratégia de se licenciar do mandato parece que ficou mais difícil. É mais um que deve ser vitimado pela era Paulo Hartung. Ele deveria ter entendido isso lá atrás, em 2010. Na ocasião, Ricardo era vice de PH e dava como certa a saída do governador em abril daquele ano para que ele assumisse o Palácio Anchieta. Ricardo chegou a pôr os móveis no caminhão para se mudar pra a Residência Oficial da Praia da Costa, mas acabou surpreendido com “fico” de Paulo Hartung, que seguiu no cargo até o final do mandato, deu a rasteira no vice e fez um acordo com Casagrande.
O prêmio de consolação, se é que se pode considerar assim, foi a eleição de Ricardo Ferraço ao Senado. Aliás, em se tratando dos Ferraço, PH também vitimou Theodorico. O decano da Assembleia é seguramente a liderança política mais longeva em atividade no Espírito Santo. A trajetória cinquentenária permitiu que Ferração se deparasse com os mais complexos e inusitados espécimes da fauna política. Mas PH, nem ele suportou.
Ferração era presidente da Assembleia no governo de Renato Casagrande (PSB). Havia a expectativa de que continuasse no cargo no governo Paulo Hartug, mas o governador trouxe um moço do meio dos eucaliptos de Aracruz (Erick Musso, PMDB), para ser o presidente da Casa. Com mão de gato, PH sacou o velho Ferração. Mas isso é outra história.
O que está em jogo a essa altura do campeonato é o que virá depois da era Paulo Hartung. Existe uma possibilidade de os processos mudarem, sobretudo com o grupo que sustenta o governo, o grupo econômico e não o político. Hartung é um governante com grandes poderes, mas isso se esgota e surgem outros governantes. Afinal, não existe espaço vazio em política.
Quanto ao futuro de PH, é voltar a ser um político comum. Isso considerando um cenário otimista que lhe dê um quarto mandato, algo totalmente desaconselhável em política, já que a fadiga de material é muito grande. Ele até pode surpreender as previsões, fazer o quarto mandato e se preparar para conquistar uma vaga no Senado. Aliás, algo que ele deveria ter feito em 2010 ou 2014. Mas insistiu retomar o controle integral do processo político. Não contava que seria tão difícil. Caiu do pedestal e agora luta para sobreviver, com a certeza de que, quando acabar sua passagem, não terá um sucessor que possa garantir a defesa de seu legado. Pode ser lembrado como o imperador que não deixou herdeiro.

