Sábado, 27 Novembro 2021

​Piada de francês

Jim Jones fundou e foi líder do culto Templo dos Povos, iniciado nos anos 1950, em Indiana, e migrou para a Califórnia nos anos 1960. Em 1974, o Templo dos Povos arrenda uma gleba de terra na Guiana, onde se ergue o "Projeto Agrícola", é aí que surge a comunidade denominada Jonestown.

É neste local que ocorre o suicídio coletivo mais conhecido da História, o do Templo dos Povos, liderado por Jim Jones, que resultou na morte de 909 pessoas por envenenamento por cianeto. Jim Jones foi encontrado morto em uma cadeira de praia com um tiro na cabeça, supostamente autoinfligido.

Diante do caso do governo brasileiro frente a milagres sobre remédios não comprovados contra a Covid-19, a conduta do presidente Jair Bolsonaro me lembra algo como uma mistificação, que, não sendo religiosa, no entanto, tem seus ares que podem remeter a uma mentalidade alienada de seita. Por sua vez, o primeiro ministro da França, Jean Castex, na Assembleia Nacional, anunciou o fechamento da França para voos vindos do Brasil.

A revista Science colocou em evidência todo o descontrole atual da pandemia no Brasil, em um artigo, com as seguintes palavras: "O surgimento de novas variantes isolará o Brasil como uma ameaça à segurança da saúde global e levará a uma crise humanitária completamente evitável". Tal artigo foi publicado por brasileiros e americanos um dia após o anúncio do premier Castex.

O vexame, para o Brasil, desta passagem do premier pela Assembleia, ficou evidente. O mico internacional do governo Bolsonaro, que no início era um exotismo que virou chacota na imprensa alemã, agora é uma extensa e dramática tragédia que, em seu outro lado, é o ridículo de um governo que compra ilusões, e que agora também virou piada de francês. Pois, na Assembleia francesa, Castex fustigou um deputado da oposição que tinha defendido o uso da hidroxicloroquina na França, em 2020, contra o coronavírus.

É bom lembrar que foi um médico francês, Didier Raoult, quem primeiro defendeu o uso da cloroquina para combater o vírus, e o bolsonarismo embarcou nesta onda da cloroquina como uma panaceia, um modo de não encarar a realidade, pois primeiro minimizou a pandemia, como uma gripezinha, em pronunciamento oficial do presidente Jair Bolsonaro, numa das cenas mais marcantes e abomináveis deste governo no ano de 2020.

Tivemos, também, no início da pandemia no Brasil, declarações estapafúrdias, como o dono do restaurante Madero, que disse que morreriam apenas 3 mil pessoas, e hoje temos mais de 3 mil pessoas morrendo a cada dia. Didier Raoult, por seu turno, mais tarde, reconheceu que estava errado, esta panaceia é uma ficção. A piada de francês, então, se deu quando Castex declarou: "Gostaria de avisar que o Brasil é o país onde ela é mais prescrita", e arrancou risadas no parlamento francês.

Agora o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sofre um processo judicial pela tragédia no estado do Amazonas. É acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal (MPF), pois demorou para agir nesta tragédia, houve omissão na iminência de falta de tubos de oxigênio, e ainda tem a famigerada pressão do SUS que aconteceu para o uso da cloroquina. No mesmo dia do colapso amazônico, foram enviados 120 mil comprimidos de hidroxicloroquina ao Amazonas.

A demissão de Nelson Teich do ministério da Saúde veio no influxo desta história toda, quando foi baixado um protocolo recomendando cloroquina para uso em qualquer fase do tratamento da Covid-19. O Laboratório do Exército passou a produzir o medicamento em escala industrial, e foram feitos milhões de comprimidos. Para piorar, o contrato com a Pfizer foi questionado entre agosto e setembro de 2020, atrasando a vinda de vacinas que já poderiam ter tido doses ainda em dezembro de 2020, e três milhões de doses até março de 2021.

No Brasil, agora, o governo começa a fazer as encomendas, mais por pressão do que por convicção, mas ainda dependendo da Fiocruz e do Butantan. E isto porque a CoronaVac, atacada por Bolsonaro, que hoje responde por 70% das doses aplicadas no Brasil, foi produzida pelo governo de São Paulo, senão teríamos apenas as vacinas da AstraZeneca/Oxford. As doses da Pfizer, agora, podem chegar em maio, tempo perdido.

Tivemos um festival de ilusões sobre medicamentos inúteis para combater a Covid-19, como cloroquina, ivermectina, nitazoxanida e azitromicina, e que passaram a integrar o chamado Kit Covid, que impulsionou o famigerado "tratamento precoce". Tivemos o aval para este Kit Covid e tratamento precoce tanto do presidente Jair Bolsonaro como do Conselho Federal de Medicina.

O caso de Chapecó é emblemático. Jair Bolsonaro desembarcou no município para louvar os resultados de tal tratamento no local, o milagre da cloroquina, que fora feito pelo prefeito João Rodrigues, do PSD, e agora o município registra os piores números sobre o vírus do que a média estadual catarinense e nacional.

O TrateCov, por sua vez, é outro escândalo que foi patrocinado pelo Ministério da Saúde. Um aplicativo que recomendava o tratamento precoce, e isto durante o auge da tragédia no Amazonas, e diante do escândalo todo, o retiraram do ar.

A OMS deu reiterados alertas contra o uso do medicamento cloroquina, e Bolsonaro, no entanto, continuou a vender esta panaceia que não é nada mais que uma ilusão para incautos, e produto propício para mistificadores produzirem este transtorno em torno de uma tragédia contínua, e que só pode ser interrompida com a chegada das doses de vacinas que estão sendo produzidas para a população brasileira e mundial.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog
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