As manobras orquestradas pelo Palácio Anchieta para dar sobrevida à CPI dos Empenhos e indiciar o ex-governador Renato Casagrande (PSB) em um novo relatório “fabricado” pelo líder do governo na Assembleia, deputado Gildevan Fernandes (PMDB), deixaram o governador Paulo Hartung (PMDB) com aparente vantagem sobre antecessor. Mas as aparências enganam.
Essa vantagem está sendo relativizada pelos meios políticos, que interpretaram a votação apertadíssima (13 X 12) como um sinal de que o Plenário da Assembleia estaria dividido em relação à manobra mal-ajambrada pelos governistas.
É fato que a votação acabou invalidando a reunião da CPI que aprovou o relatório (sem Casagrande) do deputado Euclério Sampaio (PDT) e prorrogou os trabalhos da comissão por mais 30 dias. Mas o selo do governo como articulador da manobra para riscar o rival da cena política ficou em alto relevo, causando constrangimento aos parlamentares que votaram com o governo mesmo a contragosto.
O processo causou desgaste a Paulo Hartung e aos deputados governistas que aceitaram fazer parte da manobra. A essa altura dos acontecimentos já paira no ar a dúvida se a CPI dos Empenhos ainda poderá ser aproveitada como antecedente para criar as condições favoráveis no Plenário à reprovação das contas do ex-governador ou se terá efeito reverso para os planos palacianos.
Precavido, Hartung tinha na manga um plano “B”, já temendo que Gildevan, em razão das suas limitações, pudesse falhar. O problema é que o plano “B” também foi para as cucuias nesta terça-feira (5). O Tribunal de Contas do Estado (TCE) precisou de menos de cinco minutos para negar o recurso de reconsideração do Ministério Público de Contas (MPC) contra o parecer prévio pela aprovação das contas do ex-governador relativas ao exercício de 2014. De forma unânime, o Plenário acolheu o parecer do relator, conselheiro Sebastião Carlos Ranna, pela intempestividade da peça do MPC. Por mais que o procurador de contas Heron de Oliveira tenha se esmerado para reprovar as contas de Casagrande, não deu.
A grosseira manobra ainda em curso na Assembleia e a derrota inapelável no TCE esfacelaram o plano original do governador. O cenário dos sonhos incluía uma CPI “limpa”, indiciando Casagrande pelas mãos de Euclério, e a reprovação das contas do governador na Corte de Contas. Cenário que daria argumentos de sobras para o governador pressionar os deputados a reprovarem as contas do socialista. Nem uma coisa nem outra.
Hartung parte para o duelo final com o rival sem uma bala de prata no na agulha e temendo que tiro derradeiro saia mascado na hora agá. De outro lado, Casagrande se mantém confiante no senso de justiça da maioria do Plenário. Depois de tudo que aconteceu, e da maneira como aconteceu, Casagrande está confiante de que os deputados não terão coragem de validar mais uma manobra tramada pelo “governo do ódio” — como ele tem se referido às armações de Hartung.

