As relações entre os poderes Executivo e Legislativo devem se caracterizar pelo debate em torno do desenvolvimento socioeconômico visando o bem-estar da comunidade. É o fazer política como fator essencial à esfera coletiva, diferentemente do que é registrado no dia a dia nos gabinetes de homens públicos.
O registro de uma chapa de oposição para disputar as eleições da Mesa Diretora da Câmara de Vitória nessa quinta-feira (26), consolidando um racha na base de sustentação de Luciano Rezende, prefeito da cidade há seis anos e oito meses, registra lances lastimáveis, desses que se mostram totalmente contrários ao fazer política com seriedade.
A política de convivência democrática, seguindo preceitos necessários à alternância de poder, não se faz por meio de posturas autoritárias e mesquinhas em defesa de interesses partidários sem base ideológica, sustentados, exclusivamente, por individualismos, sempre perniciosos.
Desse modo, o fazer política se transforma em simples jogo de poder, “um vale-tudo em que o essencial passa apenas por resultados imediatos”, para lembrar o pensador Milton Santos, cujos objetivos ficam bem longe de necessidades comunitárias. Nesse quadro, pratica-se, sem qualquer cerimônia, a coação em sua mais alta escala.
Diante da ameaça de perder o controle da Câmara, há mais de quatro anos em poder do PPS, o partido do prefeito, um grupo de vereadores aceita o jogo do Executivo.
Tendo à frente o vereador Max da Mata (PSDB), que se diz oposição, mas joga do lado que lhe traga mais benefícios, apresenta um projeto sobre o preenchimento de cargos comissionados, uma espécie de coação ao grupo contrário.
Encoberto debaixo do cansativo chavão de “redução de gastos”, o projeto ameaça os vereadores contrários ao prefeito com a diminuição dos cargos, que sempre são usados como moeda de troca da classe política.
Caso perca a disputa para a Mesa Diretora, cuja posse ocorrerá em janeiro de 2019, a atual gestão terá chance de colocar os futuros dirigentes sem condições de trabalhar, por falta de servidores. Não terão comissionados nem perspectiva de abertura de concurso público.
No projeto, há a abertura para um jogo de cena, já conhecido da classe política, que nada tem a ver com o poder fiscalizador das câmaras municipais visando transformações sociais. Joga-se com poder para não mudar nada, importando apenas a aparência.
A falta de visão de políticos desse tipo coloca o Brasil, o Estado e os municípios dentro de uma bolha cujo poder não resulta em melhorias em setores essenciais, como saúde, segurança e educação, mas, isso sim, na manutenção de um poder egocêntrico, que torna o mote de mudança do primeiro mandato de Luciano Rezende em uma grande manifestação do nada.
Um olhar sobre Vitória, mesmo que rápida, mostra essa realidade.

