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Política e religião

Na “Conferência Nacional Fé e Política”, o escritor e teólogo Frei Betto chamou atenção em sua palestra para a partidarização dos movimentos religiosos que, segundo ele, ameaçam o Estado Laico. A afirmação, direcionada à bancada evangélica, serve para todas as vertentes religiosas, incluindo a Igreja Católica que, embora esvaziada, ainda mantém alguns de seus remanescentes representantes no poder institucional. 
 
Na década de 1970, muitos dos rebeldes com o sistema político ditatorial no Brasil se refugiaram na Igreja Católica para fugir da perseguição do Estado, o que no país fomentou a “teologia da libertação”, que ganhou força na década de 1980, após a abertura política. 
 
De lá para cá, a igreja conseguiu emplacar muitos de seus membros nas eleições. Hoje, o esvaziamento é evidente, mas alguns nomes persistem e têm identificação clara com a igreja. A partir de 2000, o crescimento das igrejas evangélicas no País abriu espaço para uma movimentação diferente e o número de deputados, senadores, deputados estaduais e vereadores ligados a elas é grande. 
 
Nas últimas eleições e na eleição do próximo ano, esse segmento social foi e será um dos fatores decisivos da disputa. Mas a religião não é a única a marcar presença nas casas legislativas. Há uma demarcação de espaços perigosa, que deixa em último plano o interesse coletivo e os parlamentares e vereadores passam a legislar em favor das demandas dos setores que representam.
 
Além da religião, o Parlamento e as Câmaras Municiais tem também representados em seus plenários os setores da indústria, do agronegócio e até o tráfico de drogas. Cada um puxa a sardinha para sua brasa e quem perde com isso é o povo.
 
É preciso ter bem clara a função de cada um dos legisladores e cobrar deles políticas que atendam à maioria e não aos setores que os elegeram. Um senador representa seu Estado e não sua orientação religiosa, sexual, de raça ou interesses econômicos. Da mesma forma, um deputado federal e estadual não deve privilegiar esses interesses, são eleitos para representar a nação brasileira, que é diversa. 
 
A sociedade brasileira não pode ser subjugada a uma classe apenas, e eleger representantes de todas as classes geraria um impasse que não atenderia a ninguém. A sociedade brasileira tem interesses diferentes, religiões diferentes, raças diferentes, orientações sexuais diferentes. 
 
As empresas financiam os deputados e senadores para facilitar suas atuações no Brasil, mas não é para isso que serve um parlamentar. O parlamento deve ser a reverberação da sociedade como um todo e não apenas de suas contradições pessoais.
 
Não adianta eleger um de cada segmento social, é preciso que os que são eleitos tenham a consciência que não estão ali para representar uma classe e sim toda a sociedade. Mas isso dependeria de uma reforma política ampla e democrática, e não de um remendo a cada eleição para transformar a moralização da política em uma colcha de retalhos que em nada contribui para o processo democrático.

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