A vizinha diz que gostava de Dilma, mas na real “cansou” do PT e acha que está na hora de ajudar Michel Temer a “recolocar o país nos trilhos do progresso”. A linguagem típica dos anos 1950 revela a emergência do preconceito contra os pobres, os negros e os “bugres”, tidos como membros de uma raça inferior, aquela que, “quando não faz na entrada, faz na saída”.
A vizinha que se julga avançada e progressista ainda não descobriu que é racista e reacionária. Classe média modernosa, segue o catecismo da Direita conservadora. Representa a vanguarda do atraso. Elitista, bem que poderia ser identificada como “coxinha”, apelido criado pelos simpatizantes do PT para desqualificar a turma do contra, mas é apenas uma moralista de ocasião representativa da classe média.
Essa senhora ciosa dos seus direitos não deixa de ter razão em alguns itens de sua revolta, mas acaba se confundindo e gerando bate-boca no condomínio. Por exemplo, ela reconhece que a maioria dos políticos joga sujo, mas adotou como verdade conveniente e definitiva a seguinte conclusão: “Nunca houve neste país ladrões tão descarados como os do PT”. Assim, acredita que a simples colocação dos cabeças do PT na cadeia já representaria “uma boa limpeza”.
Já o vizinho desiludido, com seu negócio (uma banca de jornais e revistas) à beira da falência, apela para o sarcasmo: “Estou achando que vai faltar cadeia para tanto ladrão do dinheiro público”. Também impregnado de moralismo, ele afirma que os presos deveriam trabalhar para “pagar a casa e a comida” que recebem do governo. Para ele, o mais prático seria terceirizar os serviços penitenciários, uma ideia “tudo a ver” com o neoliberalismo econômico emergente no governo Temer.
Olhando bem, são ideias simplórias, tiradas de um manual da ortodoxia econômica aplicável ao Brasil dos anos 80 do século XIX. Num pais subdesenvolvido como o Brasil, com graves desigualdades sociais e insuficiente atendimento nas áreas de educação e saúde, o desmanche dos benefícios aos carentes é profundamente antidemocrático, como se as elites mandantes tivessem resolvido repetir o episódio do fim da escravidão, em 1888, quando os negros, em nome de sua libertação, foram jogados nas ruas, perdendo casa e comida e sem ter instrução, educação e cultura. Os reflexos dessa barbaridade ainda estão à vista de todos, nas ruas. E, ao gosto dos neoliberais, talvez sejam necessários mais três séculos para que os ex-escravos se libertem da opressão da pobreza.
Tentando agradar “os mercados”, ou seja, os detentores de capitais, o governo ensaia um retrocesso, como se o empresariado brasileiro já não desfrutasse de suficientes benesses e vantagens.
Visto como a base da economia, o sistema bancário pratica os juros mais elevados do mundo e está autorizado pelo Banco Central a sugar mensalmente as contas de seus clientes com diversas taxas de serviços, sem pagar rendimento algum pelos depósitos à vista.
A vizinha burra e o vizinho revoltado dão razão à turma dos camarotes: “V. acha que os empresários tomarão coragem de investir se o governo não fizer a reforma trabalhista?”, eles perguntam. De acordo com sua lógica, os trabalhadores querem empregos, não mordomias. Simples assim.
E mais: é preciso reformar a previdência, essa bomba-relógio…
É preciso reduzir o SUS: essa história de serviço médico universal gratuito não existe nem nos países ricos…
E chega de dar empregos para médicos cubanos…
Bolsa família? “Arrimo de vagabundos…”
Prouni e Pronatec: onde já se viu dar vaga no ensino para pobre, preto e indio? “Cadê o mérito dessa gente?”
Vizinhos e vizinhas, senhoras e senhores: é impressionante a onda conservadora que toma conta do país. Por conta dos erros do PT, os acertos dos últimos governos tendem a ser destruídos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Não é livre quem se submete a trabalhar sem esperança de progredir na vida”
Geraldo Hasse, no livro Lanceiros Negros, JÁ Editores, Porto Alegre, 2005

