Os recentes atentado em Paris aguçaram a já escandalosa campanha contra o islamismo. Os atentados foram atos terroristas de proporções enormes, que merecem repúdio e despertam o sentimento de solidariedade às vítimas e ao povo francês.
Não se pode, porém, atribuir aos muçulmanos a responsabilidade pelos ataques terroristas. Devemos lembrar que os muçulmanos, em números, representam hoje a maior religião do mundo, ultrapassaram os católicos. Eles estão presentes e crescendo em todos os continentes, na Ásia, na África, na Europa, nas Américas e na Oceania. Eles constituem maioria em muitos países do Oriente Médio.
No Brasil, atingem a cifra de um milhão, no Estado, existe uma pequena comunidade muçulmana. Atribuir aos muçulmanos os ataques terroristas que ocorrem no mundo consiste num grave erro, porque isenta as agressões com os bombardeios, praticados pelos EUA, França, Inglaterra, apoiados por outros países como algo normal, natural e mesmo necessário.
São muitos os atentados praticados em diversos países. No Iraque, no Afeganistão, na Síria, no Iêmen, na Nigéria, no Benin, no Paquistão na Líbia ou em outros países. São atentados praticados por grupos políticos contra um determinado Estado ou governo, porém existe outra modalidade de terrorismo, o terrorismo de Estado que é muito superior e mais devastador pelo poderio das armas que dispõem e pelos contingentes armados a seu favor.
Os EUA e as maiores potências econômicas e militares da Europa, principalmente França e Inglaterra interferem brutalmente com invasões, atentados, armando grupos rivais não só no Oriente Médio, Paquistão e em inúmeros países do Continente Africano para manter e ampliar suas posições econômicas, militares e políticas nestas regiões. Além das mortes e atrocidades e destruição de países geram muitos milhões de refugiados que não têm para onde ir.
E nesse caldo de cultura que surgem a maioria dos grupos radicais e de terroristas que respondem com a mesma moeda com que são tratados, com a violência indiscriminada.
Sempre causando muitas mortes e destruições, sem que se tenha a mesma repercussão dos atentados de Paris. A diferença básica é que as vítimas não têm cidadania francesa.
Em todas essas guerras não declaradas, que sempre tem perdido são os povos, que pagam com suas vidas, com suas riquezas e mesmo com a perda da autonomia de seus países.
Os atentados matam indiscriminadamente civis indefesos. Uns pelos grupos radicais e outros, a maioria, pelas potências militares ou por governos locais que são aliados dos EUA, da França ou da Inglaterra. Ou controlados pelas corporações petroleiras ou armamentistas.
São considerados terroristas islâmicos, quando praticados por árabes ou por cidadão de outros países, seja no Oriente Médio, no Continente Africano ou na Ásia, ou na Europa. Mas quando os atentados com foguetes, conduzidos por aviões modernos, destruindo povoados, escolas, hospitais e até mesquitas matando milhares de civis, estes atentados não são considerados atos terroristas, nem tampouco fazem referência a religião daqueles que praticam tais atos.
Devemos lembrar da década de 1960, quando o povo Argelino lutava por sua independência da França, que durou séculos, os rebeldes argelinos eram chamados de terroristas porque apunhalavam soldados franceses para tomar suas armas. Os rebeldes diziam sempre “trocamos de bom grado nossos punhais pelos vossos aviões, que nos bombardeiam diariamente, matando nossa gente.” Frantz Fanon cunhou uma frase para definir a situação: “Na ausência de outras armas, a persistência do punhal é suficiente.”
Se na Argélia os terroristas eram os rebeldes que usavam os punhais, o que dizer do exército francês que matava mulheres crianças e arrasavam aldeias inteiras, com bombas lançadas de aviões ou matando a sangue frio todo argelino suspeito. Mais de um milhão de argelinos foram mortos. Inclusive quando em 1961 o exército e a polícia francesa mataram em Paris, mais de 100 pessoas, a maioria mulheres e crianças que protestavam pacificamente pedindo a independência da Argélia.
Como podem ser classificados tais atos da República da França colonizadora?
Atribuir aos muçulmanos as atrocidades praticadas por fundamentalistas, que eventualmente podem professar sua fé baseada nos ensinamentos do Alcorão? E como classificar aqueles que praticam terrorismo bombardeando povoados, hospitais, escolas e mesquitas? Seriam terroristas cristãos?
A mídia e alguns intelectuais vêm repetindo que é o choque de civilizações. O bloco militar da Europa e EUA, a OTAN, repete que é “guerra uma contra Islã” ou contra o “Estado Islâmico (EI)”. Todo suspeito é tratado como um terrorista islâmico, mesmo que ele seja um europeu.
Na realidade, é a grande cortina de fumaça para justificar atos agressivos e violentos acompanhados de violações de direitos humanos contra outros povos, e certamente tornando mais difíceis a situação dos milhões de refugiados, sejam eles sírios, líbios, iraquianos, palestinos que buscam refúgios ou que estão vivendo nestes países.
A islamofobia é uma indústria poderosa, que é alimentado todos os dias por muitos meios e ela serve para justificar mais violência, mais ódio e mais insegurança no mundo. O ódio contra os islâmicos, só conduzira a mais violência e maiores restrições às conquistas da democracia. Acresce a isto o fato de os partidos de direita, com pregações xenofóbicas, ampliarem suas bases de apoio na população e nos parlamentos.
A França vem realizando ataques militares no oriente Médio e na África sobre o pretexto de combater o terrorismo, isto bem antes dos atentados de Paris.
Basta lembrar que os EUA armaram Osama Bin Laden no Afeganistão contra os Soviéticos, armaram Sadan Hussein no Iraque contra o Aiatolá Khomeini no Irão, e depois esses exércitos se voltaram contra eles. Agora da mesma maneira os EUA vêm armando e financiando grupos extremistas, que estão se voltando contra eles e seus aliados.
Essa é um luta política e uma guerra irregular, que não pode ser confundida com uma guerra contra uma religião. O islã não pode ser considerado como inimigo. Nem o Alcorão dos muçulmanos nem a Bíblia dos cristãos nem o Torá dos judeus produzem armas, comandam exércitos ou realizam atentados terroristas com homens e mulheres bomba, ou pilotam aviões e comandam drones com bombas jogadas contra aldeias, escolas, hospitais ou mesmo contra bases militares.
Os muçulmanos, os cristãos ou judeus e outras religiões podem conviver em paz. Temos bons exemplos no Brasil desta convivência, embora não faltem fundamentalistas que apedrejem seguidores de religiões de matriz africana e que se associem a traficantes em algumas favelas para expulsar e ameaçar seguidores das religiões de matriz africana ou mesmo chutar ou quebrar imagens de devoção de católicos.
Não se pode confundir os atos de terrorismos com nenhuma religião e nem tampouco aceitar que sobre o pretexto de combater o terrorismo os estados nacionais e os governantes violem os direitos humanos, atuando com os mesmos métodos, que condenam nos terroristas.
Nem tampouco julgar os muçulmanos, os cristãos ou os judeus pelo fato de que alguns fundamentalistas seguidores destas religiões pratiquem atos terroristas, sejam eles agentes públicos governamentais ou agrupamentos políticos.
Devemos combater toda e qualquer manifestação de intolerância religiosa, como crime contra a liberdade religiosa, pois é um sintoma perigoso e cujas conseqüências, se levadas ao extremo, destroem o tecido social e impossibilita a construção de um mundo de convivência pacífica, respeitando as diferentes diferenças de religiões, raças e etnias.
Nosso país e o nosso estado devem se preparar para receber milhares de emigrantes e refugiados de muitas regiões do mundo, e eles aqui chegarão com seus hábitos costumes, culturas e suas religiões, que precisam ser acolhidas respeitadas. Nenhuma manifestação de preconceito ou de discriminação contra as religiões, sejam elas islâmicas ou de matriz africanas ou cristãs ajudará na construção de uma sociedade melhor.

