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Primavera dourada

É primavera e a cidade se enfeita de amarelo ouro –  os ipês florescem para todo lado, bordando a natureza de dourado.  Têm vida curta, curtíssima, na verdade, mas enquanto vicejam, que festa! Festa para nossos olhos e para as abelhas, que se amontoam sobre as flores, felizes da vida. Que nem eu. A janela do local onde batalho o pão de cada dia é privilegiada por um desses espalhafatosos arvoredos, e quem passa para na porta para apreciar sua exuberância.
 
“Oh, sua janela!” exclamam invejosos e me agradecem a visão, como se fosse eu a idealizadora e criadora do espetáculo.  Minha janela não se abre para o sol da manhã ou da tarde, porque os vidros aqui são fixos. Perpétuos, e a empresa paga a conta do ar condicionado. Limpar vidraças é coisa de segundo ou terceiro mundinho, pois não há como acessar o vidro externo. Aqueles lavadores de vidraças nos arranha-céus de cidade grande, tão comuns nos filmes, só existem mesmo em filmes.
 
Uma das coisas que ainda me espantam quando volto à terra natal são as faxineiras das vidraças alheias. Por um salário honesto e suado, mas irrisório, arriscam a vida se esticando para fora dos edifícios, na tarefa também fugaz de manter os vidros limpos. Voltam na semana que vem com a missão de deixar a paisagem mais clara e mais visível. Paisagem essa que, muitas das vezes, melhor seria ficar encoberta por grossas cortinas – o que mais se vê nas janelas de hoje são as janelas dos vizinhos.
 
A exuberante beleza dos ipês se adapta bem à Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Os ipês que aqui floreiam, não são tão lindos como lá. No Brasil são mais bonitos e duram mais. O ipê é nossa árvore símbolo, se é que precisamos de símbolos alvissareiros num tempo em que os dirigentes do país estão mais ocupados em salvar a própria pele do que apreciar nossas belezas naturais. Outro desgosto, andam dizendo por aí que a bela Aquarela do Brasil, até hoje tocada e apreciada no mundo todo, foi composta para agradar ao ditador Getúlio Vargas.
 
Ari Barroso? Duvido muito. Mas minha terra tem primores que tais não encontro eu cá, e me perguntam os da terra de Tio Sam,  O que estás a fazer aqui, então? Como os cantores baianos, que ganham a vida fartamente em São Paulo, mas estão sempre sonhando com a Bahia. “Ai que saudade eu tenho da Bahia! Êta terrinha boa!” Também me vangloriava de minha bela terra, mas morando no exterior, aprendi que todo mundo se ufana da sua.
 
Sabe como é em cidade cosmopolita, cada um que a gente conhece tá chorando sua maravilhosa terra natal, seja haitiano, indiano, polonês, jamaicano, chinês ou escocês. Todos imigrantes que deixaram seu país por algum motivo, e nem sempre é o clima, e mesmo assim não se adaptam. Os americanos acham ofensivo a seus brios nacionais o imigrante que anda com a bandeirinha do país colada no carro. Ou com a camisa do Flamengo. Tem quem pense que é nossa bandeira.
 
O Handroanthus albus, ou seja, nosso ipê amarelíssimo, andou perdendo status quando a Lei  6.607, de 7 de Dezembro de 1978, nomeou o pau-brasil nossa Árvore Nacional. Faz sentido, que dessa madeira cor de brasa herdamos nome e endereço, mas quem conhece, já viu, ou plantou em seu jardim um pau-brasil? Acho que tem um no Parque Moscoso, mas nem lembro que cor que ele tem. Em sendo nossa árvore nacional, deviam plantá-lo nas avenidas e jardins públicos.
 
O ipê é muito mais bonito e bem mais popular, e nem só de beleza ele vive – sua madeira é usada na construção civil, para tacos e assoalhos. Sendo árvore generosa, se molhar muito o chão, vai acabar brotando e florescendo. Também é usado para fazer barril de cachaça, e nesse caso, beleza põe mesa. Mas é um desperdício.

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