Era previsível que a estratégia de PH em se apropriar do PSDB na base da força não acabaria bem. Esse desespero é explicado por um motivo óbvio: a eleição de 2018, especialmente a disputa pelo governo do Estado, passa obrigatoriamente pelo PSDB.
Do ponto de vista dos que são refratários ao alinhamento automático com o Palácio Anchieta, a ingerência do governador Paulo Hartung na sigla é interpretada como uma violência política inaceitável. Essa truculência irritou boa parte dos tucanos, aumentando a tensão no ninho e causando um racha que dividiu o partido em dois grupos: o liderado pelo vice-governador César Colnago, que quer a manutenção da aliança com PH para a disputa de 2018; e outro, representado pelo prefeito de Vila Velha Max Filho, que defende um PSDB com mais independência, com protagonismo na disputa do ano que vem.
A partir do momento que Max Filho e Colnago mostraram interesse em comandar o partido ficou claro que essas posições antagônicas seriam um impeditivo para a construção de uma chapa de consenso, como pregavam alguns tucanos mais franciscanos no início da discussão. Na última sexta-feira (27), Max e Colnago decidiram assumir que haverá disputa pelo comando do PSDB.
Nessa corrida, Max Filho larga com um corpo de vantagem em relação ao seu adversário. Pressionado pelo Palácio Anchieta, Colnago deixou de ser Colnago. Fez manobras grosseiras que não combinam com seu jeito habilidoso e discreto de fazer política. Forçou filiações usando métodos pouco ortodoxos que causaram tensões internas desnecessárias; criou desgaste à sua imagem na polêmica consulta ao Conselho de Ética sobre a legalidade de acumular a vice-governadoria e o comando estadual do PSDB. Ao acolher a estratégia de PH, Colnago se desconfigurou. Logo ele, que sempre mostrou muito capacidade para lidar com pressão sem precisar se expor.
De outro lado, a candidatura de Max Filho, reforçada com o apoio de Luiz Paulo Vellozo Lucas, vem ao encontro de uma parcela representativa do PSDB que anseia trilhar um novo rumo para o PSDB. Esses tucanos entenderam que Max Filho hoje tem capacidade de conduzir a legenda por esse novo caminho, que corre fora da bolha de PH. A perspectiva pode ser positiva para o deputado estadual Sergio Majeski que, com Colnago à frente do partido, estava com um pé na porta de saído do partido. Com Max Filho, porém, pode abrir possibilidade para um “fico”. A conferir.
Chicão repete Graciano
Volto-me agora para o norte do Estado para falar de outro tucano. O prefeito de Conceição da Barra Chicão Vervloet parece estar assustado com a política. Executivo de carreira – passou três décadas nas empresas do ex-prefeito e amigo Jorge Donati (morto em novembro de 2016) -, Chicão é um cara que acabou caindo na política de paraquedas, pelas mãos de Donati. Ele sempre demonstrou “falta de condicionamento” para o exercício da política. Poderíamos dizer que é um “sedentário” em matéria de política.
O caso de Chicão lembra o de um personagem da cena política capixaba da no final do século 19 e início do 20. Graciano Santos Neves, médico nascido em São Mateus, acabou entrando na política por acaso. Foi indicado pelo Partido Republicano Construtor para assumir o governo provisoriamente, até as eleições de um novo presidente para governar o Espírito Santo. Com a eleição de Muniz Freire, em 1892, Graciano Neves tornou-se seu vice.
Empolgado com a experiência, o médico achou que era hora de trocar de vez a medicina pela política. Em 1896 voltou à presidência do Espírito Santo, mas naquela oportunidade por eleição direta. Mas a empolgação com a política teve vida curta. Graciano Neves renunciaria ao cargo em 23 de setembro de 1897. Motivo: se disse desapontado com os rumos da política.
Apesar do desencanto, Graciano voltaria à política em 1906, ao se eleger deputado federal. Não conseguiu se eleger em 1909 e acabou pendurando as chuteiras, pelo menos na política. Graciano decidiu escrever um livro (“A Doutrina do Engrossamento”) para narrar os bastidores da política. Na obra, ele descreve o ambiente promíscuo da política, destacando as relações pautadas meramente em interesses espúrios, puxa-saquismo e traições. Aspectos que o teriam desmotivado a prosseguir na política.
Chicão, de alguma maneira, parece repetir Graciano Neves. Dizem pelas ruas da Barra que o prefeito pensa, às vezes, em “chutar o balde”. Até PH estaria tentando acalmá-lo, mas desde que se sentou na cadeira de prefeito sua pressão não para de subir.
Se continuar trilhando os caminhos de Graciano Neves, certamente deixa a política em breve. O ex-governador, por exemplo, acabou trocando a hostilidade da política por um ambiente bem mais aprazível. Tornou-se diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

