Há na Midia e nas ruas um martelar incessante reclamando “austeridade” na gestão das contas públicas. Muito justo: é preciso acabar mesmo com a roubalheira do dinheiro público. No entanto, se examinarmos a fundo o que querem os adeptos da “austeridade”, veremos uma maioria disposta a cortar os programas de amparo aos pobres, como o Bolsa Família, o principal legado das gestões petistas.
Tirar dos pobres para promover o equilíbrio fiscal não é nada justo. “Se está faltando dinheiro, o governo deve tirar dos ricos, nunca dos pobres”, me disse um veterano empresário gaúcho que foi tropeiro na juventude, nos anos 1940. Católico praticante, ele também está revoltado com a descoberta da corrupção na cúpula da Petrobras, mas nem por isso pede o corte dos programas que permitiram ao Brasil dar um passo gigantesco na busca da igualdade econômica, justiça social e equalização dos direitos humanos.
Infelizmente, são cada vez mais fortes os sinais de que as políticas sociais estão por um fio. Tome-se por base a flexibilização das leis trabalhistas, um dos projetos mais perversos dos conservadores e liberais para, como eles dizem, “acabar com a proteção a essa cambada de vagabundos”. Trata-se de uma hipocrisia irrigada pela mais profunda ignorância política. Como se pode construir uma democracia forte – e um mercado rico, que é o que mais interessa aos empresários – sem promover a inclusão das camadas carentes da população? Seguindo nessa batida, breve estarão reclamando a volta da escravidão.
Com a erosão da credibilidade do governo Dilma e o descrédito do PT, parece restar pouco para sustentar a aliança de movimentos sociais e grupos socialmente responsáveis pelos avanços obtidos desde a Constituição de 1988.
A defesa das políticas sociais enfraqueceu-se, a arguição dos direitos humanos começa a ser alvo de chacota e um retrocesso ronda o estado de direito no âmbito do Judiciário, justamente o poder encarregado de garantir o cumprimento da Constituição. Delegados, procuradores, juízes e ministros parecem empenhados num esforço para incriminar especialmente os governos petistas. Se a corrupção é mais ou menos generalizada, por que não atacar em todas as frentes?
Em artigo publicado no final de fevereiro no site Congresso em Foco, o cientista político Antonio Carlos de Medeiros escreveu que chegamos ao final de um ciclo em que é preciso “criar um novo bloco de poder” que seja capaz de formular “um novo modelo de crescimento” – mais liberal, ou seja, com menos intervenção do Estado, cujo inchaço nas últimas décadas fortaleceu a burocracia e a tecnocracia, alem de onerar pesadamente o Tesouro.
Por aí vemos que muitos estudiosos dão por encerrado o ciclo do petismo, só faltando que a presidente seja legalmente impedida de continuar no Palácio do Planalto. Com ou sem sangue?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Só na foz do rio é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes”
Guimarães Rosa

