Sábado, 15 Junho 2024

​QAnon – parte I

Quando se tematizou sobre Steve Bannon, entramos finalmente no conceito envolvendo as teorias da conspiração, o que leva esta coluna agora a falar sobre o QAnon, sua influência e associação com a figura de Donald Trump, além da relação direta com as versões contemporâneas das teorias da conspiração, que têm origem distante no tempo, mas que no mundo atual ganhou proporções inauditas e com um poder de persuasão também inédito, tendo consequências no mundo real.

O QAnon se estruturou, fundamentalmente, como uma teoria da conspiração em que o ex-presidente dos Estados Unidos estava envolvido em uma guerra oculta contra a pedofilia, associando isto aos democratas e a um Estado impregnado no sistema oficial, um Estado profundo dentro do Estado estabelecido nos Estados Unidos. Tal universo de ideias parecia tirado de um livro medieval, as condições de pensamento aqui se davam em termos pré-iluministas, num viés disruptivo de atraso e reacionarismo, contudo, afetando o mundo na prática, no chamado mundo da vida.

Na psicologia social, a teoria da conspiração opera explicando a realidade com um viés de que sempre tem algo oculto, não revelado à maioria e, portanto, que a versão oficial do que acontece estaria sendo manipulada, de preferência por grupos poderosos economicamente e politicamente, com grandeza mundial, hábitos grotescos, pura maldade, sempre fazendo uma versão de facínoras, psicopatas e etc., que estariam tomando conta dos destinos do mundo.

Uma teoria da conspiração passa pela ideia de que um grupo nefasto conspira para um objetivo vil e malicioso, operando com interpretações delirantes, seja por ilações a partir de mensagens subliminares, por exemplo, na publicidade, seja com o uso da internet para criar discursos enviesados com interpretações baseadas em simbolismos imaginários, tudo de propósito e feito para um público desinformado, suscetível, impressionável e açodado.
Além dessa narrativa em que o mal, sempre oculto, escondido, camuflado, conspira contra o bem comum, a estabilidade civilizatória e etc., a teoria da conspiração também tem a figura do herói, de capacidades redentoras e messiânicas, que seria o agente de combate e de derrota dessas forças obscuras e sombrias.

Estas narrativas ganharam corpo, sobretudo, através do antijudaísmo medieval, em que os judeus estariam "conspirando para a retomada da Terra Santa através de um pacto com Satanás, em que crianças cristãs eram sacrificadas todos os anos, no período da Páscoa, até que Satanás devolvesse Jerusalém aos judeus".

Dentre as teorias da conspiração notórias, tem a do rei Filipe, o Belo, ou Filipe 4 º da França, que reinou de 1268 até 1314, e que levantou a narrativa sobre os Cavaleiros Templários, uma ordem baseada em Jerusalém, que viviam em comunidade, renunciando à propriedade e à família, lutando como guerreiros e vivendo como monges, arrecadando doações, construindo igrejas pela Europa, chegando a administrar as contas bancárias dos reis da França.

Filipe, o Belo, em 1307, querendo se livrar da Ordem Templária, inventou a teoria da conspiração de que estes guerreiros e monges estariam envolvidos em sodomia, adoração do Diabo, pederastia, além de feitiçaria. Com o envio das guardas por toda a França, todos os Templários foram presos. Tal teoria da conspiração foi a mais bem-sucedida da Idade Média.

Retomando aqui o contexto da teoria da conspiração do QAnon, um escândalo se deu no chamado "Pizzagate", em que Edgar Welch invadiu uma pizzaria nos arredores de Washington e abriu fogo, sendo que o autor do ataque se iludiu com a narrativa falsa de que a candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, estaria ligada a uma suposta rede de prostituição infantil, que era um conjunto de fake news que circulavam na época para minar a sua campanha.

Seguindo a base comum das teorias da conspiração, a de um grupo oculto atuando nos bastidores, um grupo do mal e etc., o QAnon associou os democratas a um deep state (Estado profundo), adoradores de Satanás, que tinham montado redes de pedofilia, bebiam sangue de bebês para obter a eterna juventude, ligando isto a nomes como os de Hillary Clinton, Barack Obama, astros de Hollywood, Bill Gates, George Soros etc. E ainda tinha a ideia do salvador dos Estados Unidos, que destruiria este Estado profundo, e que seria Donald Trump.

O QAnon, teoria da conspiração da extrema direita, revela um fenômeno mundial em que figuras exóticas no cenário político e narrativas surreais deixaram de ser objeto de escárnio e deboche por parte de quem está mais bem informado e se tornaram problemas sérios e, no caso do QAnon, o FBI considera esta teoria como "uma ameaça de terrorismo doméstico".

A invasão do Capitólio (Congresso norte-americano), em 6 de janeiro de 2021, por sua vez, foi a epítome deste movimento do QAnon, revelando como tais teorias da conspiração, atualmente, têm poder de destruição e de abalo do mundo real, da vida, e não mais estão no setor de piadas de salão, de personagens caricatos e patéticos.

Para exemplificar bem do que se trata esta mudança de paradigma em relação às figuras outsiders da política e a sua base em teorias da conspiração, cito o autor da "Crítica de la Razón Paranoide" (ainda sem tradução no Brasil), Alejandro M. Gallo, que afirma que as teorias da conspiração estão longe de ser algo inócuo, inconsistente como discurso, mas que se tornam uma ideologia de Estado, que influencia terroristas, fanáticos, dentre religiosos e nacionalistas (chauvinistas), provocando massacres, genocídio, e na versão de seitas, culmina em suicídios coletivos.

O QAnon reúne pessoas, as que são massa de manobra, que estão num estado de desconexão com a realidade, num movimento que se alimenta do ódio à esquerda política, com o culto de um líder redentor, no caso, Donald Trump, em que esta narrativa falsa funciona como elo de identificação social de grupos, de um certo tribalismo, aglutinando pessoas em torno de ideias comuns, formando um coletivo ou comunidade.

A forma de retroalimentação comunitária se dá pela lógica de formação de bolhas de opiniões e informações, em que são compartilhadas sempre as mesmas orientações ideológicas, polarizando o grupo e seus indivíduos, seja na forma de ver o mundo como nas ações desta comunidade e/ou indivíduo.

Por fim, é na queda da fronteira que separava o mundo online do que acontece offline, que as teorias da conspiração e, por sua vez, o QAnon, ganharam força e dimensão relevantes e perigosas, como mecanismos paranoides.

O viés paranoide das teorias da conspiração e, por exemplo, do QAnon, como técnica de seus mentores, opera um fenômeno em que, ao invés de ser uma alienação produzida por substância narcótica ou um estado psicótico, o produto que advém no mundo contemporâneo se dá na mistura da realidade com as fake news, do mundo online e offline.

Com a influência das teorias da conspiração e das fake news, o que ocorre é a modificação da própria visão da realidade, tendo a razão cartesiana e a herança iluminista de pensamento esclarecido e de bases científicas um papel precípuo na luta contra a distorção da própria realidade e de sua captura ou sequestro por versões do mundo alucinadas e narrativas delirantes vindas de fóruns digitais, e que podem provocar massacres, golpes, suicídios e terrorismo.

(Adendo: Stephen Bannon está condenado por um júri federal por desacato ao Congresso Americano. Isso se deve ao fato de Bannon ter ignorado duas convocações parlamentares para depor na comissão que investigou o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio).

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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