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Qual, quem, quando?

Ana abre um olho e depara com a primeira decisão do dia: abre o outro olho e se levanta ou dorme mais 15 minutos? No chuveiro, lava ou não lava o cabelo hoje? No armário, leva 20  minutos ponderando: a) qual roupa vestir;  quem elogiou ou censurou; quando a usou pela última vez;  onde foi nesse dia; como me sentiu… Na cozinha, mais escolhas e decisões a confundem: café, leite ou chá; mingau de aveia ou cereal; pão ou torradas… Nem uma coisa nem outra?
 
Tráfico congestionado, como sempre. Checa no iPhone as cinco rotas conhecidas e possíveis – qual está menos ruim? Na telinha, o mapa das coordenadas é um festival de linhas vermelhas, indicando congestionamento: linha contínua, trânsito parado; linhas pontilhadas vermelho escuro, devagar e sempre. Decide pelo vermelho claro, e vai em frente sabendo bem que, seja qual for a escolha, não será a melhor delas, pois o trânsito muda a cada dez minutos, para o bem ou para o  mal.
 
No trabalho, atrasada além do aceitável, tem duas alternativas: a porta da frente, e seja o que Deus quiser, ou a porta traseira, e talvez, com sorte, ninguém a veja entrar.  Na sala, finalmente na frente do computador fumegando feito máquina a vapor, a cascata de opções é outro desafio: lê primeiro os emails pessoais ou os da empresa? No Google, pesquisa qual sapato está em promoção ou as novas técnicas de abordagem profissional que o chefe solicitou há dias?
 
Ironia dos fados, o excesso de opções da vida moderna atrapalha mais do que ajuda a maratona de transpor incólume o dia a dia. Atende a conferência ou manda alguém no seu lugar? Na hora do almoço se pergunta, Como como? Um sanduíche na cafeteria ou o fast food da esquina, onde vai encontrar colegas e adversários do trabalho? Ou tira o carro da vaga arduamente conquistada e vai mais longe, um restaurante melhor porém mais demorado, com o risco de encontrar colegas e adversários do trabalho?
 
A lista das decisões e indecisões diárias transpõe os limites da Via Láctea, num emaranhado de qual, quando, quem, como, onde, esse ou aquele, isso ou aquilo, ali ou além? As opções que não afetam a vida futura ficam catalogadas no nível um: o que vestir, onde ir, quando sorrir… Aprofundando o contexto filosófico chega-se ao nível dois: com quem ir ao casamento da prima; onde fazer cabelo, manicure e pedicure; qual roupa comprar; quando enviar o presente; como pagar tudo isso…
 
E graduamos no nível três, decisivo e primordial – com quem casar ou não casar; quando ter ou não ter filhos; onde morar; qual emprego escolher; como conciliar todas essas escolhas na vida futura e incerta. Mais fácil seria se viesse tudo já pronto e definido, sem escolhas, feito biscoitos da sorte com a mensagem dentro trazendo as respostas. E seríamos todos felizes para sempre  – já pegou algum biscoito da sorte com mensagem ruim?

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