Essa quinta-feira (23) foi pesada para o governador Paulo Hartung (PMDB). O secretário de Educação, Haroldo Rocha, foi obrigado a admitir que não conseguiu os alunos necessários para preencher as 480 vagas do piloto do projeto Escola Viva, que planeja iniciar as aulas na próxima segunda-feira (27), no prédio alugado da Faesa, em São Pedro, Vitória.
A grande imprensa capixaba tratou o fracasso do governo com naturalidade, tirando o peso do revés. Século Diário simplesmente mostrou os fatos. O que se viu nas últimas semanas foi o martírio do secretário Haroldo Rocha para convencer pais, alunos e professores que o governo tem nas mãos o melhor programa de educação que este Estado já viu.
Para desespero de Hartung, não convenceu. Não podemos nos esquecer que o Escola Viva foi o principal projeto de apelo social apresentado pelo então candidato Hartung durante a campanha do ano passado. Imediatamente após assumir o seu terceiro mandato, Hartung tinha planos para expô-lo na parte mais vistosa de sua vitrine política, como o seu maior legado à área social.
Mas da ideia rabiscada na campanha à prática há um abismo. O projeto, chamado “a menina dos olhos de Hartung“, acabou sucumbindo antes mesmo de nascer. Cabe aquele trocadilho inevitável, com o perdão do clichê: “Escola Viva que já nasce morta”.
A notícia ruim, porém, não ganhou repercussão nos principais meios de comunicação do Estado. Como passou praticamente em branco, o governo, de certa maneira, conseguiu minimizar os impactos do fiasco.
Hartung, é preciso reconhecer, sempre foi um especialista quando o assunto é abafar notícia ruim. Ou alguém se lembra de notícias negativas à gestão Hartung nos seus dois primeiros mandatos? Pois é, a estratégia continua firme e forte.
Ontem (23) também houve uma assembleia geral unificada de servidores públicos estaduais. Cerca de 3 mil servidores, segundo a organização do Fórum das Entidades dos Servidores Públicos do Espírito Santo – que congrega 19 sindicatos e associações -, decidiram que vão parar no próximo dia 13 por 24 horas. Caso as negociações com o governo não avancem, uma greve geral já está marcada para o dia 24 de agosto.
Essa é uma notícia indigesta para qualquer governante. Uma greve geral, além dos transtornos que causa à população, inevitavelmente desgasta a imagem do chefe do Executivo.
Mas Hartung já tinha uma notícia positiva para neutralizar a enxurrada de fatos negativos que cercam o seu governo. Essa notícia é melhor ainda quando vem de fora para dentro, e de uma fonte respeitada. Caso do jornal Valor Econômico – um dos mais importantes do País.
Em sua coluna, publicada às quintas, a jornalista Maria Cristina Fernandes constrói um longo texto pautado no governador Paulo Hartung. “Marcha da insensatez”, título do artigo, é também a expressão cunhada pelo governador capixaba para advertir que o movimento que quer minar irresponsavelmente o governo federal, segue na contramão do delicado momento econômico e político do País.
No texto, fica claro que Hartung pertence ao grupo contrário ao impeachment da presidente Dilma. Após marcar essa posição mais ponderada do governador capixaba, a jornalista especula que o nome de Hartung estaria sendo cogitado dentro do PMDB como uma das lideranças do partido que poderiam entrar na corrida presidencial em 2018.
Hartung desconversa a lembrança de seu nome com falsa modéstia, para destacar que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, teria a senha preferencial para entrar na disputa. A especulação para por aí, depois o artigo envereda em questões como as mudanças provocadas na arrecadação dos estados com a unificação do ICMS, a carta entregue pelos quatro governadores do Sudeste a Dilma, com propostas para os estados enfrentarem a crise, e o movimento de aproximação política dos governadores com o Palácio do Planalto, que Hartung chama de “exercício de liderança responsável”.
O texto é longo, mas a linha isolada que cogita Hartung entre os presidenciáveis do PMDB é o que basta para dissipar as más notícias que pairam sobre seu governo.
Além de alçar seu nome numa seleta lista, o artigo também lustra a imagem de “gestor à frente de seu tempo”, que havia se apagado nesses seis primeiros meses de governo. Hartung é apontado como um dos governadores de grande competência administrativa, que estaria dando uma aula de gestão para enfrentar a crise.
O fato criado repercutiu no jornal A Gazeta desta quinta (24), na Coluna Praça Oito, na voz de duas lideranças do PMDB: Lelo Coimbra e Ricardo Ferraço. O deputado federal enche a bola do governador: “A reportagem nos traz a alegria de termos um governador com o reconhecimento de qualidades presidenciais”, comenta Lelo. O senador completa: “Ter o nome do governador lembrado para este desafio, tem de ser visto como motivo de extraordinária satisfação”.
Esses reconhecimento pode ser importante para desviar a atenção da crise política que o governador enfrenta no Estado. Ele ficará, por exemplo, mas seguro para dizer aos servidores que o Estado atravessa um momento delicado, que o impede de atender as demandas do funcionalismo.
Hartung quer convencer a população que ele sabe exatamente a posologia do remédio amargo da recessão para vencer a crise. Ou alguém ousa duvidar do conhecimento do governador cujo nome está entre os presidenciáveis do maior partido do País? Afinal, deu no Valor.