Por mais inspiradora que seja, a liberação controlada da maconha no Uruguai não pode servir como referência para uma mudança similar no Brasil.
Começa que nosso vizinho sulino é um país pequeno, com pouco mais de 3 milhões de habitantes (comparável, portanto, ao Estado do Espírito Santo), e quase a metade do povo concentrado na região metropolitana (idem). Precisamos ver como os uruguaios vão se comportar diante da inovação e, sobretudo, como ficarão as crianças nessa história.
Sim, as crianças: até agora não se falou delas. Foram esquecidas pela legislação ou a mídia é que ainda não se ocupou delas no novo contexto uruguaio?
Diante da campanha por alguma forma de liberação das drogas no território brasileiro, é preciso abrir a discussão no Brasil, onde o número de crianças é pelo menos 20 vezes maior do que a população uruguaia.
Nessa encruzilhada em que nos situamos, antes da liberação ou descriminalização das drogas, é preciso lembrar que as crianças não podem ficar à mercê de exploradores sem caráter, como vem acontecendo.
Nenhuma droga é indene. Leves ou pesadas, todas têm efeitos colaterais. Mesmo o consumo moderado de uma droga leve produz efeitos colaterais (leves e/ou moderados). Se o consumo for continuado, os efeitos podem ser fatais. O excesso de álcool dá em cirrose hepática. O excesso de açúcar, por exemplo, resulta em diabetes.
Quase todo mundo está convencido de que a repressão ao tráfico não funciona senão para o aprimoramento dos esquemas de produção e distribuição, mas só por isso vamos abrir porteira sem olhar para a vulnerabilidade das crianças?
Ou alguém pensa que, a exemplo do que acontece com os filmes, bastará manter as crianças afastadas das salas (de cinema ou dos locais de libação de drogas)? Esse assunto não pode ficar para depois.
Até agora, afirma-se que uma eventual liberação reduziria o aspecto violento do tráfico de drogas ilegais. Supõe-se que, amenizando os confrontos armados entre facções envolvidas com a produção e a distribuição de drogas ilegais, serão provavelmente salvos muitos inocentes atingidos por balas perdidas ou por tiros propositais. OK, mas e daí? É preciso ir ao fundo da questão.
LIÇÃO Nº 1
Todo mundo sabe (mas alguns fingem não sabê-lo) que desde priscas eras as drogas fazem parte da mochila dos viajantes da nave Terra.
Essa história começou no dia em que algum dos nossos ancestrais mascou o talo de uma planta e descobriu que aquilo lhe dava um barato legal ou lhe proporcionava uma bad trip. A partir daí, vistas como fuga ou remédio, as drogas passaram a ser cultivadas, produzidas, procuradas e consumidas até que se estabeleceu a divisão legal x proibido. Os dois mercados mal se comunicam entre si, embora os objetos de negócio (sim, as drogas são um gigantesco negócio) sejam semelhantes na aquisição, no custo, na produção, na distribuição e nos lucros. É aí que a coisa encrespa.
Não por acaso o conhecimento e a administração das drogas virou reserva profissional de boticários, médicos e xamãs de seitas mais ou menos respeitadas. Para alimentar os mercados de consumo, criaram-se indústrias e legislações orientadas pela visão dominante nos EUA, o maior mercado consumidor do mundo.
LIÇÃO Nº 2
É comum pensar que o primeiro degrau da drogadição seja a maconha e que esta levaria escadaria acima até o crack ou à heroína ou ao LSD e drogas químicas. Não é.
Sem dúvida, falta um programa de educação sobre drogas que leve as pessoas a compreender que a escadaria não começa na maconha. A cannabis sativa é um patamar intermediário equivalente à cerveja ou ao tabaco.
A educação sobre drogas deve fazer compreender o papel do açúcar e outros aditivos na subversão dos paladares humanos. A experimentação das drogas começa pelo açúcar na mamadeira, passa pelos refrigerantes, diluindo-se numa infinidade de drinks e foods oferecidos pela indústria alimentícia e o mercado de diversões.
A Coca-Cola, por exemplo, é uma droguita leve feita com água, açúcar, gás carbônico e mais quatro ingredientes secretos, um deles o extrato da casca do limão siciliano. Ao contrário do que sugeriu o nome criado em 1886, época em que o extrato refinado da folha da coca era consumida livremente por pequenas multidões de sabidos, a cocaína nunca foi ingrediente da bebida criada no Texas. A principal droga da Coca é o açúcar, substância que até 600 anos atrás era vendida em pequenas porções em farmácias para adição em xaropes e medicamentos. Ou, seja, era considerado remédio, mais até do que o mel de abelhas, o adoçante mais usado em chás e refrescos (lembremos que o café só entrou na parada há 300 anos e o tabaco, há 400). Hoje há tanto açúcar sendo produzido no mundo que se tornou necessário adicioná-lo a tudo quanto é food ou drink.
Uma boa campanha de esclarecimento sobre as drogas deveria mostrar que os interesses comerciais existentes em torno de certas substâncias contribuem para amenizar os aspectos negativos de suas próprias marcas ao mesmo tempo em que demonizam as marcas ou variedades concorrentes.
Não cabe hoje imaginar a proibição da Coca-Cola, mas todo mundo tem consciência de que essa substância vicia o paladar e se impõe culturalmente graças a uma poderosa máquina de marketing e logística global (“Isto faz um bem”, dizia nos anos 1950 uma propaganda dessa bebida vendida como digestiva e refrescante). O que faria sentido seria educar adultos e crianças para que se mantenham numa linha de consumo moderado que não leve nem à obesidade nem ao diabetes, entre outros males.
Se olharmos as coisas pelo viés da subversão alimentar, talvez sejamos levados a concluir que a Coca-Cola e seus concorrentes carbonatados, ao fim e ao cabo, matam mais por vias indiretas do que outras drogas consideradas pesadas.
Deixando de lado a mamadeira açucarada (imposta ao mercado pela Nestlé, a mãe do leite em pó), a Coca-Cola e similares são o primeiro degrau da escadinha que leva ao consumo irrefreado de alimentos e bebidas turbinados por aditivos químicos numa escala que deixamos de mensurar por falta de tempo e também porque nossos olhos não conseguem nem ler as letrinhas das embalagens alimentícias.
LIÇÃO Nº 3
Também é preciso levar em conta outro aspecto fundamental e geralmente negligenciado em artigos, reportagens e estudos sobre o uso de substâncias leves ou pesadas que alteram a percepção e a consciência: desde o pós-dilúvio, quando Noé tomou um porre de dimensões bíblicas, o recurso à(s) droga(s) tem sido reconhecido como um ato extremo de quem não está satisfeito, precisa fugir do status quo e/ou busca alento para desabafar, além de uma infinidade de razões e desculpas.
Ao buscar refúgio numa droga – pode ser o trago moderado no happy hour, a tragadinha básica para relaxar ou a cafungada indispensável para suportar umas horas extras no trabalho intelectual –, os consumidores estão admitindo para si mesmos que “ficar normal” não lhes basta, é caretice. De individual esse comportamento pode ser tornar social porque a maioria dos usuários aprecia o consumo em grupo. A companhia de outros legitima a contravenção. Veio por aí a autorização para o consumo de ópio em casas de chá em países do Oriente. A experimentação da ayuhasca no Brasil está travestida de ritual religioso ou de ensaio medicinal.
Tudo isso e muito mais precisaria fazer parte de um programa de informação e educação sobre as drogas (latu sensu), sua produção, consumo, distribuição, dosagens, efeitos, consequências. As polícias militares estaduais do Brasil realizam nas escolas um programa de educação sobre drogas (proerd). São cursos breves e bem intencionados, mas seu viés repressivo parece servir mais para confundir do que para esclarecer os jovens. Enquanto isso, a escadaria está cada vez mais congestionada.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Como el Uruguay no hay”
Antigo chamariz turístico da ex-Suiça latinoamericana

