Mais uma sem documento na terra onde outrora jorrava

Essa velha assertiva nunca esteve tão certa, principalmente nesses tempos cinzentos quando muitos dos que migraram para uma região ao norte do Equador onde jorravam o mel e os dólares, em busca de uma vida melhor, estão voltando por conta própria ou por coação moral irresistível. Minha amiga Jane, batalhadora incansável, entrou na leva dos que optaram por se mandar por conta própria, antes que…
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Após 23 anos trabalhando honestamente, acumulou dólares que investiu em ajudar parentes e amigos deixados no Brasil e que não tiveram as oportunidades que ela encontrou na vida. Ao partir nada levou – não acumulou bens, não comprou ações da Microsoft ou da Apple, não investiu na casa própria, talvez adivinhando que o retorno seria inevitável. Poderia ter “comprado” um casamento de conveniência, que lhe daria o direito de ficar para sempre no país de sua escolha, mas nem isso quis fazer.
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Com a venda do carro comprou a passagem, e pelo Facebook fico sabendo que Jane está migrando para a Espanha: Lá vou eu de mala e cuia outra vez! Graças a uma tia que mora na Andaluzia, tem ali quem ajude na adaptação. Outra vez sem lenço e sem documento, mas trabalho nunca falta, porque limpeza de casa é tarefa ingrata, e quem pode, paga para não fazer. Por enquanto, o mar está para peixe e a maré favorável. Se der errado, pode tentar Dubai, onde tem um primo…
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Chovia e o vento soprava forte quando alguém me bate à porta na calada da noite – assombração ou apenas o vento? Abro e deparo com a Marylee, que não via há anos. De acordo com os difamadores habituais, Marylee é mais uma sem documento na terra onde outrora jorrava…ao contrário da Jane, essa nunca trabalhou, mas sempre achou um jeito de frequentar a melhor sociedade brasuca, em cujas festas era sempre a mais bem vestida. Amiga, posso passar a noite…
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O coração diz sim, a mente diz não – com esse tipo de visita, a gente sabe quando entra, mas nunca sabe quando parte…só essa noite, prometo! A garota carrega apenas uma pequena mala. Olho para a rua deserta, esperando aparecer um carro da polícia, mas só a chuva tamborila no asfalto. Voltando para o Brasil? Pergunto, sonhando ver o passaporte e a passagem de volta na bolsa Versace. Eu?! Que nada, amiga! Deu pulga lá em casa, chamei o fumigador, mas o cheiro está insuportável. Amanhã eu volto, juro! Felizmente, ela não trouxe o cachorro.
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Pergunto se não está com medo dos mascarados, e ela ri, tranquila: isso é problema de pobre, querida. Tem alguma coisa na geladeira? Sobrou uma sopa do jantar…se importa se eu pedir uma pizza? Saboreando a pizza lembro da Jane, que passou anos limpando a casa alheia…Marylee, que eu saiba, nunca limpou sequer a própria casa. Mas quem é vivo…

