Definitivamente, o governador Paulo Hartung (PMDB) lançou mão dos instrumentos necessários para ser o regente do processo eleitoral de 2018. Isso não revela, porém, qual cargo ele irá disputar, se é que vai disputar. Para interpretar os próximos passos de PH é preciso entender melhor suas novas relações políticas.
É notório que PH não vai para 2018 com seu velho “núcleo duro”. Parte desse grupo já recebeu as contas e está “trabalhando” por conta própria; outra parte está cumprindo “aviso prévio”, e devem encerrar seus ciclos com o fim do governo. Mas uma coisa é certa: PH não está mais disposto a carregar ninguém nas costas.
Esse novo grupo que se junta ao governador tem perfil completamente diferente do anterior. Agora ele lida com aliados que andam com as próprias pernas. Continuam sendo fiéis, mas não são meros marionetes do governador. De outro lado, isso obriga PH a jogar a partir das regras que quase todo mundo joga, o que pressupõe prós e contra.
Se o grupo mudou, o suspense de PH sobre suas decisões políticas continua o mesmo: cercado de mistério. Pela lógica, o caminho mais sensato para Paulo Hartung seria o Senado. Desde que conquistou o terceiro mandato de governador, esse parecia ser o seu desejo de consumo para 2018. Mas hoje é difícil cravar se ele dará sequencia à sua biografia política em Brasília.
Enquanto não decide, PH vai mexendo as peças que tem à mão e ocupando as casas no tabuleiro com seus novos aliados. Dentro desse grupo de renovação, refiro-me aos que postulam entrar na corrida à sucessão do Palácio Anchieta, se destacam os nomes de dois secretários: o de Agricultura, Octaciano Neto, e o de Controle e Transparência, Eugênio Ricas.
Em tempos de Lava Jato, com o governador na berlinda, com seu nome na boca do delator Benedicto Júnior, Ricas, dependendo do andamento das investigações, pode funcionar como um “álibi” para Hartung. Teria um efeito moral PH lançar um delegado federal, titular da Secretaria de Controle e Transparência, para sucedê-lo. Teria um efeito simbólico, mais ou menos assim: “Estou com a consciência tão tranquila que quero eleger um delegado federal, porque não temo que ele investigue meu legado”, pensaria Hartung com seus botões.
Pode ser um nome interessante também do ponto de vista estratégico. Ricas não é político de carreira e tem o perfil do “produto” que, segundo os marqueteiros de plantão, pode funcionar nas imprevisíveis eleições de 2018.
Ainda, dentro da safra dos novatos, Octaciano Neto é forte concorrente porque está à frente de um pasta historicamente estratégica para quem tem pretensões políticas maiores. Em um passado recente, a Seag alçou nomes como o do hoje vice-governador César Colnago ou do senador Ricardo Ferraço, ambos do PSDB.
Os motivos que beneficiam quem está à frente da Seag são ululantes. Basta o governador abrir o cofre para o dinheiro correr pela Seag. Os principais projetos do governo destinados aos municípios do interior – que são celeiros estratégicos de votos em qualquer eleição – passam pela secretaria comandada por Octaciano.
Dois deles já estão na agulha. O que permite transferir patrimônios do Estado (principalmente máquinas e tratores) para as prefeituras e a construção frenética de barragens, que promete resolver o problema da crise hídrica no Estado. E há mais coisas vindo por aí. Esse conjunto de ações vai ajudar a reabilitar a saúde financeira dos municípios. O resultado disso nas urnas é óbvio. Basta lembrar que Hartung venceu a eleição de 2014 contra Renato Casagrande (PSB) no interior.
As movimentações em cima de Octaciano e Ricas indicam que PH está preocupado em fortalecer alguns nomes para ter alternativas, já que ainda não sabendo que rumo dará à sua vida no ano que vem. Ele sabe que conquistar uma das duas cadeiras em disputa no Senado pode não ser uma tarefa tão simples. PH demonstra que ainda precisa de mais garantias para entrar na disputa sem sustos. Imaginem o vexame que seria para PH encerrar sua trajetória política com uma derrota na disputa ao Senado?
PH tem consciência que a disputa de 2018 não se resume ao ordenamento das peças no tabuleiro. As nebulosidades trazidas por denúncias têm impedido que ele consiga enxergar mais à frente para traçar suas estratagemas. A greve da PM, o envolvimento no esquema de “caixa 2” da Odebrecht e, mais recentemente, o flagrante de ter “garfado” o mínimo constitucional de investimentos na educação – justamente para um governador que montou seu discurso de campanha em cima de melhoria na qualidade da escola pública – são reveses que causam estragos à imagem política de PH e podem ter desdobramentos nas urnas.
A propósito, a denúncia sobre a “garfada” na grana da educação foi levada à Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo deputado Sérgio Majeski (PSDB), outro obstáculo que pode atrapalhar os planos de Hartung para 2018.
O deputado, que é professor, sempre nadou de braçada quando o assunto é educação. Por isso fez do tema sua principal bandeira parlamentar e, registre-se, vem se saindo muito bem na defesa dos interesses da comunidade escolar.
Mas esta semana o deputado mostrou que pode ampliar suas bandeiras de luta. Como as vozes de oposição na Assembleia minguam, faltam voluntários com coragem para empunhar outras bandeiras. Majeski mostrou um pouco do caos na saúde. Indignou-se com a situação da população que depende do atendimento no Hospital Infantil e na Farmácia Cidadã – ambos os equipamentos situados em Vitória. A denúncia do deputado mostra como o governo Paulo Hartung tem tratado a saúde. Um verdadeiro desrespeito à dignidade humana.
Ampliando suas pautas, Majeski ocupa os espaços vazios reservados ao campo da oposição ao governo. Já escrevi aqui que não sei quais são as pretensões de Majeski em 2018, mas tenho certeza que ele dará trabalho a PH. Aliás, já está dando.
Outro que está disposto em ocupar esse campo de oposição a PH é Luciano Rezende (PPS). O prefeito de Vitória, que cortou a fila da sucessão ao Palácio Anchieta na frente do ex-governador Renato Casagrande (PSB), ficou em evidência ao trazer à tona as denúncias contra a Cesan e a intenção de tirar a concessão do saneamento da capital das mãos da companhia estatal. Mas em pleno voo foi abatido pela delação da Odebrecht. O ex-executivo da empreiteira, Sérgio Neves, quando envolveu Casagrande no esquema de “caixa 2”, disse que parte do dinheiro seria para beneficiar a candidatura de Luciano à prefeitura.
Apesar do carimbo Lava Jato, Luciano já mostrou que vai seguir em frente com seu projeto de se candidatar ao governo. É mais um no campo que pode estorvar os planos de PH. O prefeito já demonstrou que pode enfrentar e vencer nomes apoiados por Hartung. Fez isso em 2012, contra Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB), e repetiu a dose em 2016, quando voltou a vencer a disputa à prefeitura ao derrotar Amaro Neto (SD), nome com DNA palaciano. Luciano pode travar um confronto interessante com Hartung em cima da Cesan, que parece ter lidado com coisas bem mais malcheirosas que o esgoto que se propõe a tratar.
Tanto Majeski quanto Luciano podem dar muito trabalho para PH organizar seu tabuleiro para 2018. O prefeito de Vitória ainda chega mais vulnerável ao campo de batalha por causa da mancha deixada pela Odebrecht. Como Hartung e Luciano foram alvejados pela Odebrecht, não poderão usar essa arma na batalha.
Agora Majeski chega inteiro no campo. Livre das máculas da Odebrecht, podendo se servir das armas que associam PH ao esquema de corrupção da empreiteira. Sigo mantendo essa linha: Majeski está no jogo e veio para ficar. Com toda a certeza ainda causará muitos problemas para PH. Talvez ele seja hoje o maior problema de Hartung.

