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Questão de ponto de vista

Depois de publicar reportagens sobre os altos salários dos membros do Ministério Público Estadual e dos magistrados do Tribunal de Justiça, Século Diário mostra a realidade salarial dos servidores do Judiciário. 
A reportagem lista os salários líquidos para apontar que 27 servidores receberam acima do teto constitucional (R$ 33.762). Mas se tomarmos como base os rendimentos brutos, 68 servidores receberam acima do teto. Todos os “abonados” exercem o cargo de Analista Judiciário. Aliás, há diversas classificações para esse cargo. Por exemplo, Analista Judiciário Contador, Avaliador, Execução Penal, Direito, Taquígrafo, Comissário de Justiça, Analista de Suporte, Escrivão e até “sem especialidade”. 
Os valores da remuneração variam. Um Analista Judiciário Especial Contador pode ter remuneração-base de R$ 14 mil. Já um Analista Judiciário de Direito de R$ 7,4 mil ou de R$ 9,6 mil. 
A reportagem destaca os ganhos de um Analista Judiciário de Direito que recebeu mais de R$ 103 mil (líquidos) em maio deste ano. Analisando o salário da servidora fica fácil de entender onde está o “pulo do gato”. A analista tem uma remuneração-base de R$ 7,6 mil. Recebe, porém, mais R$ 6,9 mil de Vantagens Pessoais; R$ 1,8 mil a título de Indenizações; e impressionantes R$ 92,8 mil de Vantagens Eventuais. 
Esse salto entre a remuneração-base e os R$ 103 mil líquidos que a servidora recebeu em maio segue exatamente a mesma lógica dos ganhos dos magistrados. A remuneração-base de um juiz, em média, é de R$ 28 mil. São os agregados, ou “penduricalhos”, que elevam os salários e permitem que os togados ganhem muito acima do teto constitucional.
Outro exemplo. O segundo maior ganho, também de uma Analista Judiciário de Direito, segue o mesmo caminho. Ela parte de uma remuneração-base de R$ 9 mil, recebe R$ 12,7 mil de Vantagens Pessoais, R$ 3,6 mil de Subsídio, R$ 1,4 mil de Indenizações, e R$ 59,3 mil de Vantagens Pessoais. Apura um bruto estratosférico no final do mês de R$ 86,1 mil. 
Não é salário-base, mas os agregados que fazem que os gastos com a folha (maio) dos 3.791 servidores da Justiça estadual cheguem a R$ 37,5 milhões.
Os servidores, que estão em estado de greve, reivindicam reposição de 8% e melhores condições de trabalho. Ao ler a reportagem muitos servidores vão estrilar. Vão dizer que estão apenas pleiteando um direito trabalhista. Quanto aos ganhos, como sustentam os togados, também vão alegar que são todos legais. Ninguém está dizendo o contrário, mas que o impacto desses ganhos para a sociedade é imoral, não resta dúvida.
Do ponto de vista do Judiciário, os servidores, em geral — tirando a casta que ganha supersalários —, estão na base da pirâmide que tem no seu cume 362 juízes e desembargadores. 
Entretanto, se analisarmos os ganhos dos servidores do Judiciário a partir da realidade do País, os mesmos servidores saltariam para os andares de cima da pirâmide.
Em média, eles receberam, em maio, R$ 9,9 mil. Quantos brasileiros ganham mais de 12 salários mínimos por mês?

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