Em entrevista a Século Diário, publicada nesse sábado (1), o economista Taurio Tessarolo, com longa experiência em transporte público, faz uma interessante análise técnica dos problemas de mobilidade urbana na Grande Vitória.
As considerações de Tessarolo são oportunas porque jogam luz sobre a polêmica em torno da paralisação das obras das vias exclusivas para ônibus, o BRT. O governador Paulo Hartung (PMDB) anunciou, na semana, passada, que as obras estavam sendo suspensas por falta de recursos.
Embora os números mostrem que o governo passado deixou R$ 1,9 bilhão em caixa e um empréstimo já liberado de mais de R$ 3 bilhões no BNDES, o governo atual alega que não tem os R$ 200 milhões para a contrapartida do projeto, orçado em R$ 700 milhões.
Deixando de lado a polêmica sobre o real saldo em caixa, o especialista acha que a suspensão acaba sendo benéfica, porque poderá permitir que a discussão em torno das melhores soluções para os problemas de mobilidade da Grande Vitória avance.
Tessarolo levanta muitas dúvidas. Ele afirma que é preciso refletir sobre o conceito de circulação. “Quando você fala em circulação, você vê como bens e pessoas se movimentam no espaço urbano. O espaço urbano é um espaço nobre, disputado, e o papel do poder público é elaborar políticas públicas de forma a minimizar o conflito nesse espaço. Aí a gente vê que as políticas públicas no Brasil caminham no sentido do menor esforço, o que acaba gerando mais problemas para o futuro”.
Nesse ponto, o especialista está coberto de razão. Os projetos de mobilidade urbana acabam derrapando quando as questões técnicas dão lugar exclusivamente aos interesses políticos.
Ele pondera que o Transcol é considerado até hoje um sistema de concepção moderna, mas que foi se distorcendo ao longo dos anos para acompanhar o crescimento da Grande Vitória. Tessarolo diz que o transporte público não é um elemento do planejamento urbano, e sempre acaba correndo atrás do prejuízo. Ele diz que o Transcol foi se descaracterizando porque não conseguiu garantir mais a integração do sistema.
Tessarolo comunga do consenso de que é preciso um sistema estruturante que crie um mecanismo que dilua os ganhos e perdas dessa integração. Mas ele levanta dúvidas sobre a melhor solução. Para o especialista tanto o VLT [Veículo Leve sobre Trilhos] como o BRT podem cumprir esse papel. “O que se criou na história foi um ambiente de ‘Fla x Flu’. Uma competição muito mais resultado de um ambiente que foi politizado e em que efetivamente não se destacou o melhor de cada uma das duas opções”.
Tessarolo defende que a suspensão das obras veio a calhar. “Acho que essa é a questão central para se discutir hoje. Por isso, acho que o fato de o governo ter adiado o desenvolvimento desse projeto do BRT não é ruim. Pelo contrário. Acho que é uma janela de oportunidades para se discutir de forma mais aprofundada os impactos que as alternativas gerarão para esse espaço urbano”.
A ponderação de Tessarolo é importante, o problema é que a suspensão das obras não significa necessariamente que a questão voltará à pauta de discussão, tampouco que essa discussão, caso aconteça, terá viés técnico.
Basta olhar o exemplo de Cuibá. Em 2011, o governo federal anunciou investimentos em mobilidade urbana na capital que seria uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol. À época, com dinheiro em caixa para iniciar as obras, surgiu uma grande polêmica entre o governo do Estado e Assembleia Legislativa: BRT versus VLT. A discussão, mais uma vez, saiu do campo técnico e entrou no político.
O VLT ganhou, mas até agora todos saíram perdendo. Os torcedores do mundial não tiveram o gostinho de chegar ao estádio a bordo do novo trem que, aliás, está longe de entrar nos trilhos. As obras estão suspensas pela Justiça Federal por irregularidades nos contratos.