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Refresco de memória

Em agosto de 2012, o rigoroso trabalho de investigação do Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas (Nuroc) colhia seus primeiros resultados. A Operação Pixote revelava um engenhoso esquema de corrupção entre o Instituto de Atendimento Socioeducativo (Iases) e Associação Capixaba de Desenvolvimento e Inclusão Social (Acadis). Na ocasião, 13 pessoas foram presas, entre elas o diretor-técnico do Iases, Antônio Haddad Tápias, braço direito da então diretora-presidente da autarquia, Silvana Gallina, que também foi presa na operação. 
 
No Diário Oficial do Estado desta sexta-feira (23), um ano após as prisões, o atual diretor-presidente do Iases, Lindomar Gomes, publicou o resultado do Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) aberto para apurar a responsabilidade do servidor no caso. 
 
Tápias foi condenado à penalidade de demissão pela prática infracional de lesão aos cofres do Estado e dilapidação do patrimônio estadual. Trocando em miúdos, conforme apurou a polícia, Toninho, como era conhecido, deu os pareceres técnicos favoráveis para o Iases celebrar os contratos milionários com a Acadis. 
 
Ele também teria incitado motins nas unidades de privação de liberdade para desestabilizar o sistema e mostrar que o modelo do presidente da Acadis, o colombiano Gerardo Mondragón, deveria ser estendido a todo o sistema. 
 
A demissão de Toninho reaviva um dos maiores escândalos do governo Paulo Hartung, que tinha Gallina como uma pessoa de sua extrema confiança, assim como o ex-secretário de Justiça Ângelo Roncalli, que era responsável pela autarquia. 
 
As cifras milionárias que abarrotavam os caixas da Secretaria de Justiça e do Iases despertavam a cobiça em muita gente. A Pixote conseguiu pôr na cadeia 13 pessoas, mas muitas outras foram investigadas, se safaram das prisões e hoje se fingem de rogadas. É o caso do deputado Josias Da Vitória (PDT).
 
Um ano antes da Pixote estourar, Século Diário fez um série de reportagens que apontavam indícios de corrupção nos contratos entre o Iases e a Acadis
 
À época, o jornal mostrou a relação próxima do deputado estadual Josias da Vitória com o colombiano Gerardo Mondragón. Pelo menos três empresas da família do deputado, em nome de sua irmã e de sua mulher, passaram a estabelecer contratos com a Acadis Linhares. 
 
Antes de as empresas da família do deputado celebrarem contratos com a Acadis, Da Vitória usou sua influência parlamentar para promover o ex-frei colombiano nas rodas políticas e sociais do Estado. 
 
A estratégia era tornar o ex-frei uma referência no trabalho com adolescentes privados de liberdade. Da Vitória promoveu eventos, audiências públicas, seminários e debates para divulgar o Modelo Pedagógico Contextualizado (MPC) – método plagiado de uma instituição religiosa.
 
Tanto esforço foi reconhecido pela imprensa capixaba. Observe algumas manchetes veiculadas à época pelo jornal A Gazeta: “Ex-infrator colombiano, Gerardo Bohorquez Mondragón lança livro no Tribunal de Justiça”; “Educador Gerardo Mondragón mostra que é possível recuperar dependente químico”; “Ele esteve no mundo do crime e hoje resgata os infratores”. 
 
No final de 2010, depois de viajar à Espanha a convite de Mondragón, o deputado voltou para o Espírito Santo cheio de “boas ideia”. Emplacou, assim que chegou, um artigo no jornal A Gazeta para relatar a experiência exitosa de sua viagem à Espanha com o companheiro colombiano e aproveitou para mandar um recado ao então governador eleito Renato Casagrande, que estava prestes a assumir o comando do Estado. Avisou: “(…) E é por isso que sou defensor da implantação, em terras capixabas, de um projeto de ressocialização similar ao espanhol, e farei esta sugestão ao próximo governador [Casagrande], que, tenho certeza, será sensível a essa proposta”, registrou em seu artigo.
 
No final de 2010, preocupado em deixar uma boa imagem do companheiro para o novo governo, Da Vitória coroou seu trabalho de “relações públicas” ao conseguir o título de cidadão espírito-santense para o ex-frei. A justificativa para conceder o título ao colombiano foi atribuída aos resultados “extraordinários” obtidos por Mandragón em menos de dois anos à frente das unidades de internação. O texto lido em público rasgava elogios ao presidente da Acadis: “(…) [o trabalho da Acadis] trouxe mudanças significativas para toda a sociedade capixaba”. 
 
Na verdade, corrigindo o deputado, o trabalho da Acadis foi uma aula de crime organizado para a sociedade capixaba. O esquema enraizado no governo Hartung envolveu muita gente importante que continua flanando por aí como se nada tivesse acontecido.  
 
A demissão de Tápias serve apenas como um refresco para reavivar a memória do cidadão capixaba que ainda há muita coisa a ser investigada no governo passado. 

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