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Segunda, 26 Outubro 2020

Renato é o grande articulador

A eleição municipal em Cachoeiro sempre teve repercussão no Estado, trazendo peso para os políticos que as disputaram. A história mostra que em 1946 – do mês de janeiro a junho -  governou o Estado, nomeado interventor federal, o médico cachoeirense Aristides Alexandre Campos. Foi escolhido por Getúlio Vargas, em pleno estado Novo. 


Aristides era cunhado do famoso senador Atílio Vivacqua, também capixaba, que dá nome ao município sulista.  Dois outros interventores o sucederam, até que o também cachoeirense Carlos Lindenberg foi eleito governador por eleição direta, em 1947, tendo governado até 1951. Claro que outros líderes tiveram influência na formação das lideranças políticas do Estado, mas é necessário que se dê um salto na história para chegar aos tempos de hoje, com vista a abarcar os fatos nesta crônica. Uma fase muito efervescente, sem dúvida, foi durante a década de 70, em plena ditadura militar.  Em Cachoeiro se confrontavam, principalmente, Teodorico Ferraço, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone e Roberto Valadão. Ferraço é o que restou. 


O MDB, partido de oposição à ditadura militar, tinha em Hélio Carlos Manhães seu maior líder, ao mesmo tempo em que transitava sem sinal fechado no seio da repressão. Nunca foi um líder de esquerda, mas um político carismático, sem manchas, probo, dono de uma oratória portentosa.  Certa feita, quando o então governador Arthur Gerhard foi a Cachoeiro inaugurar do Polivalente do Bairro Guandu, obra que era uma espécie de carro-chefe da ditadura, Manhães era prefeito. Foi-lhe concedida a palavra. Encerrada a cerimônia, comentou o jornalista: “O Hélio tomou a obra do governador”. Reinou muito tempo em Cachoeiro e abriu as portas para que Gilson Carone e Valadão pudessem governar o município. 


Por outro lado, na Arena, partido de apoio ao governo militar, Ferraço conseguiu vencer quatro vezes a eleição para prefeito. Não conseguiu a quinta porque, com excesso de soberba, deixou escapulir pelos dedos para um neófito do PT, Carlos Casteglione. Perdeu a eleição por não ter participado efetivamente da campanha. Ou porque o PT estava em ascensão. 


Com a passagem de Casteglione por duas vezes na Prefeitura, as velhas lideranças sumiram do mapa eleitoral. Sobrou Ferraço (DEM) que ostenta o mandato de deputado estadual. E que ainda agita e alvoroça os meios políticos cachoeirenses como uma possível candidatura a prefeito por, supostamente, ostentar boas posições no levantamento das pesquisas.  Como sabe fazer, sugere que se não encontrar um nome “serei candidato”. Mas, a essa altura, esse argumento é pouco retórico ou efetivo.  Há, somente, uma interrogação sobre qual o candidato que ele apoiará. 


Não é mais o vereador Alexandre Bastos (PSB), que anunciou a sua renúncia à pré-candidatura anunciada, pois ostentava o segundo lugar numa também eventual pesquisa. O governador Renato Casagrande, que é companheiro de partido do vereador há mais de 20 anos e atua diretamente na sucessão do prefeito Victor Coelho (PSB), afastou Bastos de sua pretensão acalentada até poucos dias. Hoje será candidato apenas à reeleição como vereador. Aliás, vereador de seis mandatos. 


Trabalha com contundência o governador Renato.  Em relação a Ferraço, tem em Ricardo Ferraço (PSDB) seu interlocutor permanente. Ricardo neutraliza a inquietação do seu pai que não convive bem com o prefeito Victor. Mesmo assim, Ferraço lança seus petardos para confundir a opinião pública e se mantém em cena.  


Muito se tem falado em outros candidatos. Mas se eleição fosse hoje, o prefeito Victor (PSB) estaria reeleito. Há grande dificuldade de se encontrar candidato em razão de os líderes do passado não terem permitido a renovação dos quadros.  Candidatos de hoje nasceram na sombra (e com muito esforço) das velhas lideranças. O prefeito Victor, que venceu o candidato de Ferraço (Jathir Moreira -PSDB) nas eleições de 2016, é herdeiro político de seu irmão Glauber Coelho, morto em acidente, e se consolidou depois da calamidade pública em razão das cheias do rio Itapemirim. Atuou como um líder amadurecido da noite para o dia.  


Claro que seria uma precipitação dizer que é uma conjuntura consolidada. Mas, se não aparecer um candidato que possa oferecer outras ideias que se confrontem com as do prefeito Victor, a eleição poderá ser decidida por antecipação.  As velhas lideranças pagam um preço alto por não terem permitido a criação de novas, com receio de perder seus lugares. 


Victor oferece também grande ameaça ao deputado Ferraço. Caso venha se eleger, poderá manter um vice de sua confiança – a especulação é em torno do nome de sua secretária Márcia Bezerra – e se lançar candidato a deputado estadual, depois de dois anos de mandato, obliterando o espaço de Ferraço.  Tudo em conjunto com Casagrande na sua campanha à reeleição.


É um quadro de perplexidade. O governador considera a eleição de Cachoeiro crucial para projetos futuros. E, por isso, na verdade, é o grande articulador desse processo. Reduzindo a margem de riscos, resta agora deixar Ferraço aparecer com um azarão, o que não está sendo fácil. Mas não impossível.

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