“O poder financeiro fala mais alto na vida de qualquer cidadão”, disse Roberto Andrade, presidente do Corinthians, a propósito da compra de meio time corintiano pelo futebol chinês.
OK, não é muito apropriado, a esta altura do campeonato mundial da corrupção, usar a fala de um cartola do futebol como argumento contra o poder massacrante do dinheiro. Afinal, os graúdos da CBF, da Conmebol e da FIFA estão sendo caçados pelos “federais” ianques [atenção aí porque isso faz parte de um jogo maior ainda: os norte-americanos apreciam dar lição de moral nos outros mas deixam o rabo de fora, já que garantem ao seu presidente o direito de anistiar megalarápios, se for para favorecer os mag(a)nos interesses ianques da economia imperial].
De longa data se sabe que o dinheiro que circula no futebol não é limpo. É fruto de um gigantesco conluio entre clubes, patrocinadores e redes de TV, o que se reflete na brutal desigualdade da distribuição da renda dos que militam no esporte. Para uma centena de craques regiamente remunerados, há milhares de pobres diabos se esfolando para garantir o espetáculo.
Se metade do dinheiro que jorra nos esportes fosse canalizado para obras sociais, o mundo não seria esse circo de fome, miséria e violência.
Por ambição de uns e subserviência de outros, o mundo se tornou um grande randevu onde somente os artistas têm direito a almoço grátis/boca livre. Mas antes de chegar lá onde mandam os ricos, todo artista tem que pastar, ralar e suar a camisa. Se for astro da bola, mais ainda.
As pessoas veneram os artistas e os santos, mas também admiram e invejam os milionários, os empresários e os políticos detentores de largos poderes. Por que? Porque quem manda é o dinheiro.
O dinheiro compra tudo, até a cumplicidade de pessoas que se calam ou se tornam colaboradoras, parceiras em contratos fraudulentos, imorais.
A corrupção é onipresente e intemporal. Na memória de qualquer brasileiro que tenha tido educação católica há lembranças de compra de indulgências plenárias e venda de “cadeiras no céu”, tudo isso para sustentar “obras sociais” e, de quebra, manter a suntuosidade de alguns templos.
É verdade que os vigários malandros são minoria. Para que não digam que falei somente do espírito mercantil do catolicismo, registre-se o messianismo atroz das igrejas evangélicas, protestantes e outras mais ou menos demagógicas e corruptas.
Todos os credos religiosos usam a divindade como biombo para explorar a boa fé e o medo humanos.
O enriquecimento pessoal não é crime, é até legalizado. Se o cristianismo o reprime e condena, as igrejas protestantes o valorizam e engrandecem, mas moralmente não se pode negar que ficar rico é imoral porque cada um que se sobressai economicamente subtrai recursos de uma multidão que se rasteja a seus pés.
V. vê esses apresentadores de TV como Ratinho e sente vergonha de pertencer à raça humana. Não é só pela cara de pau do “artista”, mas pela disposição das pessoas em ser humilhadas, como se mendigassem 15 segundos de glória.
A maioria dos jogadores de futebol, ao marcar um gol, logo aponta o céu, como se tivesse sido escolhida pela divindade para mandar a bola para a rede.
Se V. atribui o sucesso a Deus, está automaticamente perdoado por tirar disso uma montanha de dinheiro. Simples como uma bola rolando, não? E as bolas rolam cada vez mais.
Na Cuba do socialismo primordial, implantado em 1961, havia uma regra salarial básica segundo a qual ninguém poderia ganhar mais do que três vezes o mínimo. Tal conceito era validado por uma máxima: “a todos segundo a sua necessidade, a cada um conforme a sua contribuição”, mas nada além de um limite estabelecido pelo senso de justiça e equilíbrio. Infelizmente, esse conceito foi esquecido diante da derrocada dos regimes comunistas.
Que fique clara essa verdade elementar: se à maioria está faltando o básico, é porque tem alguém levando vantagem na ponta de cima do sistema. Disso resulta esse escândalo recém-revelado: os 62 sujeitos mais ricos do mundo detêm o equivalente ao que possuem os 50% mais pobres. Pior ainda: enquanto a metade pobre vem ficando mais pobre, a nata dos ricos está com mais dinheiro na caixinha.
O Brasil até que deu uma melhorada nesse aspecto, mas sem abalar a carnificina montada em torno do dinheiro.
Nesse aspecto, mesmo cometendo “deslizes operacionais”, a Operação Lava Jato tem o mérito de confirmar antigas suspeitas nunca antes comprovadas: se nos negócios privados há falcatruas, nos negócios com dinheiro público, pior ainda. Acolherados os dois, sai de baixo.
Quando o enriquecimento se torna uma meta de vida, as pessoas vão ficando insensíveis. O afã de ficar rico a qualquer preço incentiva a transgressão moral, ambiental, social e econômica.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”.
Aparicio Torelly, o “Barão de Itararé”

