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Repressão liberada

O jornal A Gazeta deste sábado (26) publicou pesquisa do Instituto Futura sobre a ação da Polícia Militar capixaba nas manifestações de rua de junho, julho e agosto deste ano. Segundo o Instituto, 71,8% dos entrevistados apoiam a repressão policial nos protestos; 25,3% reprovam e 2,9% não souberam ou não responderam. 
 
Se o dado da pesquisa for interpretado ao pé da letra, em outras palavras, a polícia pode descer o couro à vontade na população nas próximas manifestações de rua. A pesquisa, além de legitimar a ação truculenta da polícia, que marcou os protestos, também manda um recado velado para os manifestantes: “Se voltarem às ruas, serão duramente reprimidos, e com o apoio da população”. 
 
Além do polêmico resultado da pesquisa, há mais uma pergunta intrigante no ar: por que o levantamento foi divulgado no “Encontro de Liderança da Rede Gazeta”? Foram os empresários que encomendaram a pesquisa? 
 
Sinceramente, não dá para entender o contexto da publicação. A reportagem sobre a cobertura do evento dedica uma página para a presença do vice-presidente da República Michel Temer, um dos palestrantes do Encontro, e outra para a pesquisa, que recebe a mesma vinheta: Encontro de Lideranças. 
 
A pesquisa do Futura diz ainda ter perguntado aos 411 entrevistados se eles seriam a favor da proibição do uso de máscaras em protestos, como acontece hoje no Rio de Janeiro. Segundo a pesquisa, 87,1% dos entrevistados disseram que seriam a favor de uma lei que proibisse o uso de máscaras.
 
Apesar das respostas, curiosamente 89,2% dos entrevistados afirmam ser favoráveis às manifestações que ocorreram recentemente. O Instituto faz questão de frisar, porém, que esse apoio, relativo a junho, caiu para 72,5% em outubro. 
 
Outro dado intrigante. Embora os entrevistados apoiem a repressão policial, 63% acham que as manifestações terão reflexos nas eleições de 2014. Isso quer dizer que os entrevistados consideram os protestos positivos? 
 
O diretor do Instituto Futura, José Luiz Orrico, “força a barra” ao afirmar que a população deixou de apoiar as manifestações a partir do momento em que os Black Blocs aderiram aos protestos. “É um dado novo, que surpreende e indica que, pelo menos no Espírito Santo, a forma como a polícia agiu teve apoio da população”, diz Orrico. 
 
Ora, o movimento dos Black Blocs no Espírito Santo é recente e muito tímido se comparado ao do Rio de Janeiro e de São Paulo. Não houve uma ação contundente dos chamados Black Blocs no Estado a ponto de influenciar a população a apoiar a ação de repressão da PM nos protestos contra os manifestantes a partir da ação desse grupo.
 
A própria pesquisa contradiz Orrico quando aponta que quase 90% dos entrevistas não conhece ou nunca ouviu falar dos Black Blocs. Quer dizer então que os entrevistados não conhecem os Black Blocs, mas passaram a apoiar a ação repressora da polícia depois que o grupo foi para as ruas? Um tanto contraditório, não?
 
O contexto no qual a pesquisa foi publicada e o título da matéria em letras garrafais – “Maioria apoia ação da PM nos atos de rua” – deixam patente que o jornal A Gazeta e o Futura querem com a pesquisa criminalizar as manifestações de rua. Isso já foi feito sistematicamente pelo jornal durante a cobertura dos protestos. Vale registra que em setembro o Grupo Gazeta foi alvo de um protesto, registre-se, pacífico. 
 
A reportagem de A Gazeta ignora as prisões arbitrárias e os casos de inúmeros manifestantes que apanharam da polícia, foram asfixiados por bombas de gás lacrimogêneo, intoxicados com spray de pimenta entre tantas outras violações que marcaram a ação desastrada e truculenta da PM durante as manifestações de rua que mudaram a cara do País. 
 
Faltou a Futura perguntar aos manifestantes, vítimas de todas essas violações, “se a PM capixaba está preparada para lidar com as manifestações populares?”

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