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Quarta, 03 Março 2021

Retornar ao remetente

A vida é um troca-troca constante, renovação e retrocesso. Para ganhar idade nova precisamos nos desfazer da velha. O mesmo vale para o dia e a hora, um ano que entra e um ano que sai, o ontem e o agora, a juventude e a velhice. O sol pela lua, o aluguel pela rua, diria um poeta sem inspiração. Os filmes perdem para os seriados e os livros para o Twitter. Quanto menos melhor, diria o poeta preguiçoso. Se ontem foi a carta e hoje é o e-mail, alguma coisa se perdeu no meio do caminho.

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A reclusão imposta por uma pandemia desenfreada trouxe de volta uma velha senhora muito respeitada: a filatelia. Andava claudicante, mas de repente voltou à moda, transformando o selo postal em obra de arte. Disfarçado de pombo-correio, o selo registra a história, atesta as mudanças sociais, morais, religiosas, acompanha modismos e tendências, eternizando a arte e o artista. Mesmo custando pouco, um selinho pode alcançar valores que extrapolam os algarismos nele impressos. Muitos ficaram famosos e altamente valorizados no mercado de antiguidades. Convém dar uma olhada nos guardados do seu avô.

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A arte milenar de apreciar, preservar, incentivar e colecionar selos estava se afogando no excesso de tecnologia. Mas de repente sobe à tona e respira ar fresco: a turminha entediada encontrou na filatelia uma atividade que classificaram de relaxante, palpável e "instagramável" - quer dizer, que se adapta ao Instagram. É isso, a turma jovem deixou o Facebook para os coroas e debandou para o Instagram. Para eles, a maior vantagem da filatelia é ser 'unplugged', sem precisar de tomadas para sobreviver, e isso mostra uma saudável tendência.

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Quem não nasceu ontem deve se lembrar do filme Charada, mas falar nisso é 'spoiler', como se diz por aqui. Tá no Netflix, portanto, se não viu vai correndo assistir - depois vem terminar essa interessante leitura. Colecionar selos era sinônimo de educação e bom gosto - crianças de todas as idades os disputavam como se fossem figurinhas de super-herói. Quando o carteiro chegava, o selo causava mais frisson do que a carta. Era comum enviar cartas a consulados e embaixadas espalhadas pelo mundo para receber de volta um envelope adornado com selos coloridos.

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A corrida atrás do cobiçado FDC - Primeiro Dia de Circulação, quando o carimbo do dia coincide com a data do lançamento do selo, era uma caça ao tesouro, provocando longas filas na porta dos correios. A decadência começou quando os correios inventaram o famigerado carimbo postal - feio, sem personalidade, insignificante. O carimbo matou a correspondência e provocou o avanço tecnológico, ou vice-versa? Nessa reação em cadeia, a filatelia foi a vítima: sem carta não tem selo e sem selo não tem colecionador. Mesmo assim, os filatelistas reagiram, e indo ao correio despachar uma carta, exigiam o selo.

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Por muitos séculos esse pedacinho de papel serrilhado, de ínfimo valor, cumpriu seu dever de levar a mensagem aos quatro cantos do mundo, mesmo sem cola. Nesses antanhos as agências tinham um cilindro de cerâmica rolando sobre uma base cheia de cola. Veio o selo com cola seca e o pote de cerâmica continha água para umedecê-lo. Teve a história da assistente em um consultório lotado que selava uma pilha de envelopes lambendo os selos um a um. A cena incomodava os impacientes, que lhe diziam que aquele lambe-lambe prejudicava a saúde. Ela nem aí, até que alguém mudou o discurso, Sabia que cola engorda? Ela correu atrás de um potinho com água.

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Comentários: 1

Maria Tiago em Terça, 09 Fevereiro 2021 08:49

Meu pai teve uma filatelia em Copacabana quando os selos estavam em alta. Ainda temos milhares guardados.

Meu pai teve uma filatelia em Copacabana quando os selos estavam em alta. Ainda temos milhares guardados.
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