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Ricardo Ferraço na estrada

Aos 50 anos recém-comemorados, o senador Ricardo Ferraço (PMDB) já é um veterano na política. Está na estrada desde os 19 anos. Ele agora constrói visibilidade e atuação nacional e admite que pode vir a ser candidato a governador do Espírito Santo em 2014. A sua densidade eleitoral no Estado é inquestionável. Mas a sua liderança política ainda é relativizada na mídia especializada em Política e nas manifestações “em off” de políticos capixabas e de membros do governo federal e do Congresso Nacional.
 
Eduardo Fachetti de A Gazeta, por exemplo, afirmou que Ricardo “parece tentar provar que aprendeu a andar com as próprias pernas e que tem fôlego para falar alto. Resta saber se está medindo bem o tamanho dos passos”. Já Renata Oliveira de Século Diário, também por exemplo, tem ressaltado que Ricardo teria feito bobagem em sua atuação no caso do senador boliviano Roger Pinto Molina e que age em sintonia com o seu pai, Theodorico Ferraço (DEM), com vistas à eleição ao governo do Estado em 2014, tudo para que “se fortaleça como uma grande liderança no Estado”.
 
Muitos políticos capixabas e de Brasília também têm esta visão do senador como um político que ora é visto como “filho de Theodorico Ferraço”, ora é visto como “aliado do raio de influência de Paulo Hartung”. Esta visão e imagem não combinam com Sua Excia. os fatos, isto é, não combinam com a trajetória política mais recente e com a densidade eleitoral de Ricardo Ferraço. Para começar, ele é um político relativamente jovem, mas já é um veterano que começou como vereador aos 19 anos em Cachoeiro de Itapemirim, foi em seguida eleito e reeleito deputado estadual em 1990 e 1994, foi presidente da Assembléia Legislativa, e em 1998, com 75 mil votos, foi o deputado federal mais bem votado do Estado.
 
Depois, tendo perdido as eleições para senador em 2002, foi secretário de Agricultura no primeiro governo Paulo Hartung e em seguida, em 2006, foi eleito vice-governador para o segundo mandato de Paulo Hartung. E em 2010 foi eleito senador com a maior votação histórica do Estado: 1.557.409 votos.
 
No Senado da República, Ricardo passou a presidir a importante Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) e nela passou a se envolver pessoalmente nos assuntos, principalmente em momentos de crises, com protagonismo. Este protagonismo foi bem retratado em reportagem recente da repórter Júnia Gama em O Globo: “…em pouco tempo conseguiu dar mais destaque à CRE e atuou em questões de destaque, como a dos haitianos refugiados e a do caso Snowden…”. E aí veio o episódio da fuga do senador boliviano, no qual ele confrontou o governo Dilma com a sua atuação de coprotagonista.
 
Por este protagonismo, Ricardo Ferraço agora está na mira dos holofotes e divide opiniões, elogiado por muitos, mas criticado também por muitos. Alvo de controvérsias. O que é bom para ele. Que assume as responsabilidades e, sendo alvo de controvérsias, firma a imagem de independência que deseja firmar na sua atuação como senador, fora do guarda-chuvas do, digamos, “mainstream” do Senado. Com esta postura, é claro que ele passa a ser visto como confiável para alguns e como não confiável para outros, dependendo do “lado” do observador. De qualquer forma, esta inserção nacional com protagonismo independente o projeta nacionalmente e lhe dá, aos poucos, luz própria numa Casa, como o Senado, onde há um grupo hegemônico que dificulta a potencial independência de um novato (no Senado) como ele.
 
Mas também o projeta no Estado, numa estratégia (deliberada ou não) de “vir de fora para dentro”, numa terra onde uma grande dose de provincianismo ainda dificulta muito a trajetória dos “santos de casa” e onde, ao contrário, se costuma aplaudir e admirar os que “vem de fora”. Pontos para ele. Com isto, também, ele vai superando o seu criador político (Theodorico Ferraço) e vai mantendo uma relação do tipo “nem tão perto, nem tão longe” com o ex-governador Paulo Hartung.
 
Só não vê quem não quer. Se isto vai catapultar uma candidatura à governadoria do Espírito Santo em 2014, é outra história. Mas que vai firmar uma liderança de nível nacional – coisa rara na política capixaba – lá isto tudo indica que vai. Ricardo Ferraço ainda tem mais de cinco anos de mandato de senador pela frente…
 
Bom, mas mesmo assim vale a indagação: e a governadoria? Dizem no mercado político regional que ele estaria atrás de Paulo Hartung, Renato Casagrande e Magno Malta nas pesquisas de intenção de votos para 2014. Mas nesta altura isto não quer dizer muita coisa. Muitas vezes não quer dizer nada. De minha parte, arrisco-me a palpitar que Ricardo Ferraço só não será candidato se o governador Casagrande alinhavar com o seu PMDB uma verdadeira e explícita aliança política, assumindo claramente o chamado legado da Era Hartung. Mas está ficando tarde para esta aliança, embora as eleições sejam só no ano que vem. Se ganhar um segundo mandato – quando teria mais liberdade política para governar, sem a necessidade de mirar uma re-eleição – , Renato Casagrande vai querer que Paulo Hartung tenha em relação a ele o mesmo papel que Lula tem em relação à Dilma Rousseff ?
 
Se for candidato mesmo, Ricardo tem perfil político-eleitoral para disputar votos não apenas no interior do Estado, mas também na Grande Vitória, palco das recentes manifestações de ruas. Ou seja,ele é competitivo eleitoralmente também porque tem perfil para falar a linguagem dos jovens manifestantes. Não que ele represente uma “novidade”. Não é isto. Mas que ele tem perfil para dialogar sobre gestão pública, a questão que perpassa as demandas dos manifestantes. E no interior as eleições de 2010 já mostraram que ele ultrapassou os limites de “político do sul do estado”, tendo sido bem votado em todos os municípios.
 
Em abril de 2010, ao ser “induzido” por um súbito conchavo político de última hora a retirar sua então pré-candidatura a governador do Espírito Santo, candidatura que então mostrava musculatura eleitoral, Ricardo apareceu em público abatido para o anúncio da retirada da candidatura e disse que estava assumindo esta renúncia como um gesto político para “não virar comida de onça”.
 
Pois bem. Nos últimos três anos, desde que fez este gesto de renúncia, o veterano político e senador Ricardo Ferraço não faz outra coisa a não ser criar condições para não correr nunca mais o risco de “virar comida de onça”…

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