É grave a acusação feita pelo deputado estadual Gilsinho Lopes (PR) na CPI do Pó Preto, de que o presidente da Vale, Murilo Ferreira, mentiu em seu depoimento na Assembleia Legislativa, ao afirmar que as denúncias de espionagem contra mineradora foram arquivadas. Mas, infelizmente, não surpreende. Desde quando a Vale diz a verdade nos estados onde atua, inclusive no Espírito Santo? São anos e mais anos vendendo alegações falsas à população.
E isso vem ainda do período em que se instalou no Estado, durante o regime militar, com favores dos governos da época, e dinheiro público. Também lá atrás, quando sua movimentação de minério passou a causar mal-estar na população do entorno e surgimentos de doenças, a Vale mentia, acobertada pelo poder público, seu parceiro de longa data.
Com o passar dos anos ganhou novos aliados, e começou a difundir sua versão deturpada da história pela mídia corporativa. Por meio dessa estratégia, e com recursos de sobra para investir na classe política e “comprar” silêncios, foi fácil para mineradora consolidar sua expansão na Ponta de Tubarão, entre Vitória e Vila Velha, onde tem hoje oito usinas de pellets, que agrega valor à matéria–prima a um alto custo social e ambiental.
Pouco adiantaram as denúncias feitas na época de sua instalação pelo cientista reconhecido internacionalmente, Augusto Ruschi, prevendo a destruição ambiental das atividades da Vale. Também foi ignorado o alerta de que a localização das usinas, em decorrência da predominância do vento nordeste, levaria a poluição atmosférica produzida pela empresa, principalmente, para os moradores da Grande Vitória.
Ao invés de buscar meios de minimizar esses impactos, houve quem dissesse que Ruschi havia enlouquecido. No ensejo, o jornal A Gazeta detonou o cientista. Enquanto em sua terra, porém, ele era alvo de alvejo constante, a ponto de levantar dúvida sobre seus conhecimentos científicos, a Europa o saudava como o principal naturalista do século XX.
A reação aos alertas de Ruschi até hoje é repetida pela empresa no Espírito Santo. Aqueles que ousam criticá-la, são constantemente criminalizados. Foi assim, também, no caso citado por Murilo Ferreira, da espionagem aos movimentos sociais, que revelou práticas semelhantes às da ditadura militar. Embora com farta documentação e indícios, até hoje não foram apresentadas as devidas respostas sobre a investigação.
Essa outra mentira da Vale, por meio de seu presidente, poderia ficar por isso mesmo, como de hábito. Só não aconteceu, porque Gilsinho resolveu desmascará-lo. Se dependesse dos demais integrantes da CPI, o presidente da mineradora teria deitado e rolado, como tentou fazer no seu depoimento, depois de não comparecer à primeira convocação.
Acostumada com a impunidade e com o histórico que tem, o que é uma mentira para a mineradora? Nem sob juramento, a verdade.

