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??s sete da manhã

Dalva mora há 15 anos em Miami, e em todos os dias chamados úteis, acorda às sete da manhã com a nítida impressão de estar em Blumenau, Santa Catarina. Olha em volta e a primeira coisa que acha estranha é o relógio luminoso na mesa de cabeceira… De onde veio isso? O entorno lhe parece totalmente desconhecido, embora more nessa mesma casa há 15 anos.
 
Essa sensação de estranhamento é comum em pessoas que viveram em lugares diferentes, mas depois de 15 anos, a situação já passa do comum para o patológico. Não dura mais que dois minutos, mesmo assim, incomoda. Nos sábados e domingos, acorda onde mora, como todo mundo. Dalva já gastou horrores com psicólogos, já recorreu a simpatias e visitou mães de santo – tem muitas em Miami – mas nada foi capaz de fazê-la se sentir em casa ao despertar.
 
Lino acorda às sete todos os dias, chova ou faça sol – o dever o chama. Toma banho e se veste, sempre estranhando porque desta vez não deixou a camisa e a gravata do dia já separadas de véspera, como sempre faz. Ou fez, pois Lino está aposentado há 8 anos e não tem nenhum compromisso que o obrigue a levantar cedo e sair de casa. Mais das vezes a esposa acorda e grita, “Volta pra cama, Lino!” Se ela não acorda, ele toma o café da manhã e sai.
 
Só quando chega do lado de fora Lino lembra que não precise ir a lugar nenhum. Mesmo assim, vai. Entra no carro e enfrenta o trânsito engarrafado de sempre, passa em frente da empresa, dá graças a Deus por não ter que trabalhar, e volta pra casa. A esposa o espera, “Vou pôr um cadeado na porta”; ele, “Fui só dar uma voltinha”; ela, “De terno e gravata? Você precisa ver um psiquiatra ou arranjar outro emprego”. Lino senta com ela e toma o segundo café da manhã, “Vou pensar nisso. Quero dizer, em outro emprego”.
 
Pior faz Zoira, que sempre morou na casa em que nasceu e nunca precisou trabalhar fora, graças ao pai rico. Vive feliz com a vida, mas o mesmo não pode dizer Telma, a filha que mora com ela e trabalha no fórum. Bem, hoje trabalha no fórum, mas no emprego anterior tinha que chegar às oito, e Zoira continua acordando a filha às sete, “Sete da matina!” Telma manda a mãe de volta pra cama, “Só entro no fórum às 11!” A mãe resmunga um pedido de desculpas, mas volta daí a pouco, “Vai perder a hora, Telma!”
 
Enquanto Telma não sai da cama Zoira não desiste. Aí se desculpa, “Que coisa, esqueci que você trocou de emprego!” No dia seguinte… Telma poderia mudar de casa, mas quando por algum motivo dorme em casa de amigos, o telefone toca às sete do mesmo jeito, acordando a casa toda. Ou, se não sabe o número, a mãe eficiente liga para pessoas conhecidas perguntando se tem o telefone da casa tal ou qual… pior ainda.
 
Deve haver  um final feliz para essas pessoas, mas qual?  Dalva voltaria para Blumenau e acordaria todos os dias pensando estar em Miami? Lino arranjaria outro emprego e não acordaria às sete, pensando que está aposentado? Telma mudaria de casa, sem telefone, mas acordaria às sete do mesmo jeito, preocupada com a mãe preocupada em acordá-la?  Hmmm! Vamos fazer de contas que essas manias é que talvez as façam felizes.

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