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Sai da moita, Levy

De um ministro da Fazenda, o mínimo que se pede é que entenda de economia, tenha senso político, seja ético e possua um mínimo de carisma. Agora olhemos bem para o ministro Joaquim Levy, indicado pelo presidente do Bradesco, o Sr. Trabuco, que recusou o cargo oferecido pela presidenta Dilma: não há dúvida de que lhe falta alguma coisa nesse momento decisivo da vida brasileira.  
 
Pode servir de consolo saber que Levy tem cara de bom moço, mas o que importa é o caráter. Convenhamos, Levy é muito mais sem sal do que Guido Mantega, o ministro anterior, que possuía um tom monocórdio que fazia dormir o mais atento dos entrevistadores.
 
Mas Mantega veio das entranhas do PT paulista, o que lhe garantiu certa audiência e alguma imunidade, embora tenha sido alvo mais ou menos permanente do Sr. Mercado, chefe do Trabuco e do Levy.
 
Parece evidente que Levy foi aluno aplicado, mas ser “o melhor da classe” nunca foi bom atributo – basta lembrar o quinto presidente-militar, João Baptista Figueiredo, um general estouradão que não tinha vocação política, embora fosse treinado para o mando.
 
Ou, seja, não basta fazer corretamente a lição de casa, é preciso ter aquele algo mais que gera credibilidade, confiança e boas expectativas. Quando fala, Levy parece esquecer que precisa convencer seus ouvintes da validade dos seus argumentos.
 
Um ministro da Fazenda não pode ser bonzinho. A Levy só falta vestir uma batina e colocar um báculo sobre a cabeça. Até um padre moderno é mais apto do que ele na construção de frases irônicas para alfinetar adversários e inimigos.
 
Agora, também não podemos pôr toda a culpa no Levy. Transformá-lo em bode expiatório seria um erro tão grande quanto atribuir ao ministro Mailson da Nobrega a culpa pela inflação de 80% no fim do governo Sarney. Hay que mirar o conjunto, a conjuntura.
 
Também não se pode achar que um ministro precisa despejar sobre a população um saco de maldades, como fez a ministra Zélia Cardoso de Mello com o aval do presidente Collor em 1990.
 
A verdade é que nossos ministros da Fazenda só ficam bons depois que saem do cargo. Veja-se o caso de Bresser Pereira, que não conseguiu domar o dragão inflacionário mas vive aí dando aulas de racionalidade.
 
E temos o caso extremo de Fernando Henrique Cardoso, que foi ministro da Fazenda sem saber economia mas como presidente entregou as rédeas da economia a um grupo de economistas mercadistas privatizantes.
 
Mendonça de Barros, Lara Rezende, Gustavo Franco, Pedro Malan: eles fizeram a lição de casa. Alguns saíram do governo ricos.
 
A herança econômica de FHC + Lula está quicando na área. Levy não tem coragem nem sensibilidade para propor algo fora do catecismo do Mercado.   
 
Num país que teve ministros como Souza Costa (Getulio Vargas), Octavio Gouveia de Bulhões, Delfim Netto, Mario Henrique Simonsen e Karlos Rischbieter (todos nos governos militares), não custa esperar por um ministro carismático, seguro de si. Isso é meio caminho andado para uma gestão vitoriosa.
 
O que não dá para aguentar é um sujeito que está ali como por obrigação ou, pior ainda, porque precisava de um cargo ministerial para melhorar o currículo.
 
Levy está para completar um ano na moita, só ocupando o cargo, sem obrar algo que sirva de alento para a população.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
“A variável das expectativas tem peso decisivo nesse momento”
 
 Maria da Conceição Tavares, economista

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