Não surpreende que, depois de aumentar o patrimônio de suas empresas, mediante cobrança de pedágio sem a contrapartida prevista em contrato com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (Antt), um grupo de empresários capixabas abra mão das ações que possuíam no consórcio ECO 101.
As seis empresas do grupo Centauros Participações Ltda (27,50%) – Águia Branca, Tervap, Coimex, A. Madeira, Urbesa/Araribóia e Contek – deixaram o projeto junto com o grupo gaúcho Grant Concessões e Participações Ltda (14,5%), vendendo suas ações para a EcoRodovias Infraestrutura e Logística SA (58% das ações), por R$ 46,6 milhões.
Alguém estranhou o silêncio clamoroso da maioria daqueles que deveriam, em nome dos mandatos que lhe foram delegados pelos eleitores, questionar de pronto a debandada providencial?
É habitual – quando o assunto é a ECO 101 – essa mansidão. Afinal, tratam-se de poderosas empresas que, invariavelmente, alimentam campanhas eleitorais. As do grupo Centauros, por exemplo, fizeram doações para a classe política do Estado da ordem de R$ 2 milhões desde 2002, conforme registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Essa mesma mansidão marcou os três anos de concessão da BR-101. Só começou a mudar, mesmo, depois da segunda tragédia brutal na rodovia, em setembro passado, que somando com a anterior, chegou-se ao total absurdo de 32 mortes. Após forte pressão popular, parlamentares capixabas e o governador Paulo Hartung começarem a engrossar o coro dos descontentes com o atraso das obras de duplicação. Mesmo assim, tirando uma ou outra exceção, somente quando acionados.
As empresas, que agora abandonaram o consórcio, é bom lembrar, fizeram muita questão dele. Recorreram até a Justiça para fazer parte da ECO 101. E parecia correr tudo muito bem, até a lista de desgastes recentes.
Em apenas três anos, a concessionária registrou faturamento de R$ 550 milhões, reajustou os pedágios anualmente e, em contrapartida, fez muito pouco pela rodovia. Sobre as obras de duplicação, medida emergencial para a “rodovia da morte”, sempre protelou, apresentando inúmeros argumentos.
Mas o grupo Centauros só agora resolveu se “rebelar”, alegando como peso na decisão, o anúncio de que a ECO 101 não irá fazer a duplicação prevista em contrato. Anúncio feito lá atrás. Não deveria ter saído antes? O que mudou?
Reações generalizadas, ações judiciais, ameaças à cobrança de pedágio, de onde vem a bolada da arrecadação, e risco de anulação do contrato. Mais estratégico e fácil se livrar dos previstos imbróglios político e jurídico. É o que parece.
Como dizia o sábio Tancredo Neves, esperteza, quando é muita – espera-se -, come o dono.

