A madrasta era pior que a da Cinderela

Esse belo nome, Maria, é o mais usado no mundo, muitas vezes acompanhado de outros nomes menos famosos – da Conceição, Rita, da Penha, Esperança, dos Encantos, Genoveva, das Dores…embora nasçam chorando, não acho justo uma criança inocente ser chamada Das Dores, prefiro Das Graças. Maria é o único nome feminino que tem um derivado masculino: Mário. Usualmente é o oposto: Júlias, Sebastianas, Joanas, Josefas ou Josefinas, Paula, Laura…conheço apenas um Elizabeto.
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Maria é o único nome que se tornou substantivo comum – são tantas marias! Maria de Lourdes trabalhou comigo por alguns anos, e a vizinha resmungava: Não sei como você aguenta essas marias…o contrato era do tipo dormir no ofício, no tempo em que no quarto dos fundos cabia uma cama. Onde Maria nunca dormia – saía depois da janta e só aparecia no café da manhã. Fui visitar minha tia no hospital, não tinha ninguém para passar a noite com ela. Ou, Fui na reza, teve quermesse, dormi na casa da amiga. Um anjo!
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Uma tarde de vento frio e lixo acumulado nas calçadas, navegando eu por uma avenida no centro da cidade, vejo a de-Lourdes, com nome de duas santas poderosas rodando bolsinha em uma das esquinas próximas do porto: minissaia, miníssima blusa, cigarro na mão. Com o trânsito intenso talvez tenha visto errado, portando contornei, voltei, quase provocando um acidente, e não houve lugar para dúvidas – era mesmo a de-Lourdes já agarrada com um marinheiro chinês ou paquistanês – não deu para ver direito.
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Veio substituí-la a Maria Figurina, magrinha e tagarela. Saio para o trabalho e deixo as instruções para os arranjos do almoço: lava bem o arroz e deixa secando na peneira. Antigamente, era assim que se fazia arroz. Ao voltar vejo que o arroz foi tão bem lavado que virou pó: nem sabia que isso podia acontecer. Fora os desastres na cozinha, era carinhosa com as crianças e pensava que eu era o Muro das Lamentações: sofria horrores vivendo com a madrasta pior que a da Cinderela…que nem nome tem.
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Chorou no dia do aniversário porque nunca teve festa de aniversário, portanto caprichei num bolo de chocolate, com cobertura de brigadeiro e 17 velinhas. Posso levar para casa? Não entendi o motivo, mas disse que sim, e que me trouxesse o prato de volta – era o do microondas. Escusado dizer, nunca mais vi o prato nem a Maria Figurina, em um tempo em que não vendiam microondas em Vitória: comprado em Miami. Recebia frequentes visitas para ver como a coisa funciona…funcionava.
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A terceira Maria foi aquela que chegava bêbada toda manhã. Passada a ressaca, era um dínamo: casa limpa, comida pronta antes das crianças saírem para o colégio…um dia pediu as contas sem mais nem menos, e fico sabendo pelo porteiro do dia que Dona Maria Negatina, do andar de cima, ofereceu pagar mais…tudo bem, continuei cumprimentando a vizinha no elevador. Dias depois alguém toca a campainha: Cadê a empregada? E a Negatina adentra minha porta sem ser convidada.
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Que eu saiba, está trabalhando pra você…pois sumiu, e roubou minhas joias. Sem pedir licença, invade o quarto dos fundos e revira tudo. Não tem ninguém aqui, digo. Ela deve ter vindo para cá, porque o porteiro da noite disse…pelo jeito, ela queria revistar meu quarto, mas barrei no baile: Chama a polícia e dá o fora, não tenho nada a ver com isso. A polícia prendeu a Maria mas as joias nunca foram encontradas: o namorado, Mário das Quantas, vendeu para um doleiro de Jucutuquara, segundo relato confidencial do porteiro da noite. *
Mesmo assim, sempre que deparava com a Negatina no elevador…ainda não encontraram minhas joias! Conforme informação confidencial do mesmo porteiro, não eram joias de muito valor…em tempo: vasculho o Google e não encontro o nome da madrasta da Cinderela. Aliás, nessa história, ninguém tem nome: o galã se chama Príncipe Encantado e a malvada é Madrasta. Esse belo conto de fadas nao tem autor – não foram os Irmãos Grimm. Cinderela também não é nome – vem de cinder, cinzas: quem vive na beira do fogão. Como tantas marias.

