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Século Diário, 15 anos

Em março de 2000, Século Diário “subia” sua primeira edição on-line, se tornando um dos primeiros jornais digitais do Brasil a ser concebido exclusivamente para internet. Outros chegaram à internet três ou quatro anos antes da virada do milênio, mas eram sites de notícias derivados dos grandes grupos de comunicação, que inicialmente transformaram o conteúdo do impresso em digital. 
 
Aos jornalistas Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado coube o desafio de transformar todo o conhecimento acumulado nas principais redações do País em conteúdo próprio para internet. Formados no ambiente analógico, eles se perguntavam: o que deveria mudar na estrutura e forma do texto para o conteúdo ficar com “cara” de internet?
 
O dilema não era exclusivo dos dois veteranos. Essa dúvida pululava as mentes de todos aqueles que estavam se aventurando neste novo universo chamado World Wide Web (www). Na verdade, os desbravadores da internet, num primeiro momento, achavam que estavam trocando suas sagradas Remingtons e Olivettis por um teclado, um monitor e uma CPU. 
 
Para os analógicos, a modernidade que os obrigava a aposentar o tec, tec, tec das velhas máquinas de escrever, tinha um lado positivo: o novo “brinquedinho” permitiria fazer jornalismo a um custo bem mais baixo. A parte mais cara do processo de produção e difusão da notícia, papel e logística de distribuição, não entraria nos custos do novo negócio.
 
Rogério e Stenka, que estavam prestes a aposentar a Revista Século justamente por causa do alto custo do papel e da logística, criaram coragem para enfrentar o desconhecido e não deixar o projeto de se fazer o bom jornalismo morrer. A exemplo dos primeiros navegadores europeus que procuravam as Índias mas toparam com a América, Rogério e Stenka também embarcaram na nau sem saber aonde exatamente iriam chegar. Mas isso não importava naquele momento. A vontade de desbravar o desconhecido superava as incertezas. 
 
Depois de navegar por alguns anos na rede, Rogério e Stenka chegaram à conclusão que o bicho era tinhoso, mas não tinha tantas cabeças assim. Eles estavam convencidos que para fazer o bom jornalismo, independia da plataforma. E foi esse o compromisso do projeto desde a sua concepção, no início de 2000.
 
Stenka foi desta para melhor 12 anos depois dos primeiros conteúdos subirem para o ar, mas até os últimos de seus dias de Redação continuava se empolgando com o ofício, como nos velhos tempos. Ele sabia da importância de manter vivo no Espírito Santo um jornal independente, pautado nos fatos e comprometido exclusivamente com o leitor. 
 
Mas fazer jornalismo independente no Espírito Santo não tem sido uma tarefa fácil. Para se manter vivo nesses 15 anos, Século Diário precisou, e precisa, matar um leão todo dia. Não existe trégua, se baixar a guarda o leão te trucida num golpe definitivo e mortal. E não estamos nos referindo aos desafios de gestão para empreender um negócio. 
 
Não por coincidência, Século Diário passou a ser jogado sucessivamente na cova dos leões, leia-se Judiciário, após a deflagração da Operação Naufrágio, em dezembro 2008. O jornal, como exigia sua vocação, fez uma cobertura independente da operação. 
 
A série de reportagem sobre a Naufrágio fecundou o livro-reportagem “Um novo Espírito Santo: a corrupção veste toga” (Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado). Na publicação, os jornalistas esmiuçaram os fatos, nominando 14 dos 24 desembargadores do Tribunal de Justiça com envolvimento naquele que foi o maior escândalo do Judiciário capixaba.
 
Os 14 desembargadores, diretamente, nunca questionaram as reportagens ou o livro, mas a partir daí começaram a pipocar na Justiça ações contra Século Diário e seus jornalistas. 
 
A estratégia inicial foi asfixiar o jornal financeiramente. As ações de danos morais se mostraram o caminho mais eficiente para fechar o jornal. Uma delas, movida por um juiz, exigia a “imoral” indenização de meio milhão de reais. 
 
Em algumas ações, o jornal foi condenado e teve que pagar; outras, conseguiu reverter. Enfrentou turbulências financeiras, não podia ser diferente. A Justiça bloqueou as contas bancárias da empresa que edita o jornal com o intuito de “confiscar” o dinheiro na fonte e saudar as indenizações. 
 
Ao mesmo tempo em que faziam a asfixia financeira, os detratores de Século Diário apertavam o cerco com a censura. As sucessivas condenações obrigavam o jornal a suprimir conteúdos e o impedia de citar os nomes dos autores das ações no noticiário. Era a clássica censura à liberdade de expressão, a mesma dos anos de chumbo, aplicada a um veículo de comunicação na sua forma mais perversa. 
 
O achaque, porém, não foi suficiente para fechar o jornal, que continuou, aos trancos e barrancos, assegurando o conteúdo ao leitor todos os dias desses 15 anos. 
 
Os insucessos da asfixia financeira e da censura fez com que os algozes do jornal adotassem um recurso ainda mais extremo. A estratégia desta vez era apertar o cerco com ações criminais contra os jornalistas. Isso mesmo. Eles não queriam apenas atingir os responsáveis pela publicação do jornal, mas também seus repórteres. O intento dessa nefasta estratégia era (ou é) intimidar os jornalistas. 
 
Alguns leitores vão se perguntar: precisava gastar mais de 4 mil caracteres para revelar o lado amargo da história de Século Diário, num momento que deveria ser de comemoração? 
 
Pensamos que sim. Os leitores de Século Diário — tanto os que nos leem porque gostam como os que nos acompanham porque temem ficar indiferentes ao fato — precisam saber que existe um forte movimento no Judiciário para acabar com um dos jornais de internet mais antigos do Brasil. 
 
Se existe uma parte boa nessa história é que a sobrevivência na adversidade nos fortaleceu ainda mais. Estamos preparados e dispostos a levar mais 15 anos de informação ao nosso leitor. Em Século Diário, nós ainda compartilhamos da visão de George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é propaganda”.
 
PS: Para não dizer que não falamos das flores, Século Diário pôs no ar hoje um novo layout para valorizar o conteúdo oferecido a você, leitor. Antecipadamente, nos desculpamos por alguns problemas técnicos que devem ser corrigidos nas próximas horas. A nova versão tornará a leitura nos dispositivos móveis (tablet e celular) muito mais agradável. 
 
Boa leitura e muito obrigado pela audiência!

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