
Jogada para plateia, mudança de planos eleitorais, reforma da Previdência, desgaste da Odebrecht, climão no PSDB…o que explica, afinal, a atitude do senador Ricardo Ferraço de se licenciar do mandato até o próximo dia 15 de dezembro? Desde que anunciou sua decisão, nesta quarta-feira (18), como uma reação à manutenção da cadeira de Aécio Neves, são muitas as perguntas nos bastidores. Ferraço já havia, de fato, se manifestado contra o retorno do seu “padrinho tucano”, mas com tanta negociação entre os parlamentares, não foi pego de surpresa, como tentou parecer. Indignado, envergonhado de ser político? Parece uma jogada de risco, principalmente para quem sequer compareceu à votação. Ao mesmo tempo, nas entrelinhas de suas declarações à imprensa, o senador se volta ao eleitorado do Estado. Deixa no ar uma possível mudança de estratégia para a disputa do próximo ano e expõe uma fragilidade à sua imagem, arranhada tanto no processo da reforma Trabalhista, do qual foi relator, como na citação da Lava Jato. Sobre o primeiro caso, como avisou em A Gazeta, irá rodar o Espírito Santo para prestar contas de seu mandato e se aproximar dos capixabas; no caso da reforma, passa a peteca para o suplente que é do ramo, o ex-presidente da Findes, Sérgio Rogério de Castro (PDT). E a torta de climão no PSDB, considerando as duras declarações anteriores do senador e as de agora? Em meio a tantas interrogações, uma única certeza até agora: é muita indignação para quem escolheu berrar de longe, porque não abriu mão de viajar em missão especial de empresários aos Emirados Árabes.
Vai explicando…
Ferraço já percebeu que precisa explicar sua ausência. No Facebook, sua assessoria tem disparado um texto padrão. “Não votar não significa apoiar Aécio, muito pelo contrário, o meu voto seria mais um voto sim, a favor da manutenção da decisão do STF. Seriam 44 x 27. A minha viagem oficial, ao lado do Senador Cristovam Buarque, estava programa há meses, diferente da votação de ontem, que não estava programada para o dia 17”. Difícil convencer.
Vai explicando II…
Também não ajuda o senador, nessa história da viagem, a foto que circula em grupos de WhatsApp nesta quarta-feira, de sua mulher, Vivian Coser, também em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Nada de ilegal, mas é o tipo da coisa que a população não engole.
Divisão
Com essa decisão, Ricardo Ferraço estará por aqui durante o processo eleitoral interno do PSDB, que se encerra em 11 de novembro. Ele chegou a ser apontado como um nome de consenso em meio à polêmica da disputa. Mas, depois disso, muita água já rolou e ainda terá pra rolar.
Aí tem…
Aliás, e o adiamento do Conselho de Ética da decisão sobre o acúmulo de funções do vice-governador César Colnago com uma possível presidência do PSDB, hein?
Esquiva
A senadora Rose de Freitas (PMDB), mais uma vez, ficou de fora de uma votação decisiva. Em 2016, passou mal no dia da votação do impeachment da ex-presidente Dilma. Agora, alegou que não conseguiu embarcar de volta para Brasília. Oi?
Uniforme
Só sobrou mesmo Magno Malta (PR) entre os senadores capixabas. Ele votou contra devolver a Aécio o mandato. Ah, e sem paletó! Magno foi uniformizado com mais uma de suas camisas-bandeiras.
Respingos
Voltando a Rose, a ausência na votação pode ter um preço, assim como sua citação no depoimento do doleiro Lúcio Funaro, como um das parlamentares que teriam negociado propina com o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Embora negue a acusação, Rose é conhecida no mercado por suas relações antigas com o grupo de Cunha, o que, inclusive, rendeu a ela a primeira vice-presidência da Casa em 2013.
Só pensa nisso
O governador Paulo Hartung não desiste de retomar o quanto antes as operações da Samarco/Vale-BHP. Nessa terça-feira (17), fez um tour em Brasília em gabinetes de ministros, ao lado do deputado federal Lelo Coimbra (PMDB), que saiu comemorando a chance de a empresa voltar a funcionar ainda este ano. É incrível como Hartung e a classe política colocaram na gaveta um crime que, dois anos depois, ainda prevalece o descaso aos atingidos.
Nas redes
“Vale lembrar: dos 44 senadores que votaram a favor de Aécio, 28 são investigados pelo STF. Alguns que votaram contra Aécio, só o fizeram em função da proximidade das eleições 2018”. (Deputado estadual Sérgio Majeski – PSDB – no Facebook).
PENSAMENTO:
“Quem pretende apenas a glória não a merece”. Mario Quintana

