Depois que os protestos de junho do ano passado deixaram o asfalto, muitas foram as teses que orbitaram na mídia tentando decifrar o fenômeno que levou milhares para as ruas de todo o País.
Algumas correntes acreditavam que as pautas das ruas refletiriam nas urnas nas eleições deste ano. Afinal, a faxina na política era uma das demandas que ecoavam dos protestos.
Outros analistas eram menos otimistas. Afirmavam que os movimentos de junho não construíram lideranças e nem tampouco interlocução com a agenda política.
Após a votação de domingo (5), o balanço que se faz é de que ninguém estava totalmente errado ou certo. As urnas mostraram que houve um pouco de tudo nessas eleições. Na contramão dos anseios da rua, o eleitor fluminense reelegeu Jair Bolsonaro (PP) com a maior votação do Rio de Janeiro: mais de 460 mil votos. O militar reformado, integrante da chamada “bancada da bala”, segue para seu sétimo mandato na Câmara.
De outro lado, os maranhenses mostraram que os protestos de junho chacoalharam os brios dos eleitores, que deram um basta à dinastia Sarney e seus associados. Flávio Dino (PCdoB) atropelou nas urnas o candidato da família Sarney, Lobão Filho (PMDB).
No Espírito Santo, a vitória de Paulo Hartung (PMDB), na análise mais imediata, sinaliza que o eleitorado não confirmou nas urnas os anseios das ruas. A população capixaba, além de melhorias no transporte, saúde e educação, pedia mais ética na política. Não queria mais políticos envolvidos em corrupção, com perfil autoritário e que colocam os interesses pessoais na frente dos públicos.
A disputa acirrada entre Paulo Hartung (PMDB) e Renato Casagrande (PSB) trouxe à tona uma enxurrada de denúncias de corrupção envolvendo o então candidato do PMDB. Nos debates, prevaleceram os ataques, os quais Hartung classificou como “baixaria”. Essa, na verdade, era a estratégia do peemedebista para desqualificar as denúncias que ele não tinha (e ainda não tem) como responder.
Os candidatos ao governo Renato Casagrande e Camila Valadão (PSOL), assim como parte da imprensa, cobraram explicações do candidato. Afinal, era esse o clamor nas ruas: mais ética na política. Não podemos esquecer que a Capital capixaba, proporcionalmente, levou às ruas o maior número de manifestantes do País. Um dado que não pode ser ignorado.
Nos últimos dias, os “analistas de plantão” passaram a criar teses para explicar a derrota de Casagrande. Nessas teses, os ataques que o socialista fez ao adversário são classificados como um “erro”. Como se cobrar explicações sobre denúncias de corrupção do candidato que quer governador o Estado não fosse legítimo. “Erro” seria a omissão.
Há um dado importante para a reflexão do processo eleitoral encerrado no último domingo (5) que pode ajudar a esclarecer a eficácia dos ataques. O governado eleito, que classificou sua vitória como “robusta”, precisa reconhecer que não é bem assim. A maioria dos eleitores da Grande Vitória (incluídos os municípios de Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana) reprovou Paulo Hartung nas urnas.
Casagrande só não superou Hartung em Vitória (diferença 1.040 votos) e Cariacica. Hartung teve 369.494 votos contra 379.810 de Casagrande – uma diferença de mais de 10 mil votos favoráveis ao candidato do PSB.
Esses resultados mostram que a população da Grande Vitória, que participou mais ativamente dos movimentos de junho, ao saber que o candidato do PMDB estava envolvido em denúncias de corrupção, o reprovou nas urnas.
Não se sabe, ao certo, como as denúncias impactaram os eleitores do interior, que processam a informação a partir de uma outra dinâmica. O fato de esses eleitores estarem mais distantes do centro de poder, que concentra as mais importantes instituições do Estado (Assembleia, Tribunal de Justiça, Ministério Público e as maiores Câmaras), também pode pesar na hora de interpretar a notícia, que pode chegar distorcida.
Considerando ainda que Século Diário publicou a maioria das reportagens sobre as denúncias envolvendo Hartung, e que mais de 80% dos leitores do jornal estão concentrados na Grande Vitória, não podemos dizer que os “ataques” foram danosos para a campanha do candidato do PSB. Ao contrário, onde a informação chegou (Grande Vitória), o eleitorado interpretou os fatos, processou e reprovou Hartung nas urnas.
A tese simplista de que os ataques foram um erro de Casagrande só serve para criminalizar o autor das denúncias (Século Diário) e os candidatos que se basearam nessas informações para cobrar explicações de Hartung. O governador eleito, disposto a não explicar nada, desvia o foco das denúncias para sair da condição de acusado e assumir o papel de vítima.

