A onda de lama que desce de Minas Gerais em direção ao Espírito Santo, em função do rompimento de duas barragens de rejeitos de minério da Vale-Samarco, em Mariana, despertou o sentimento conflitante que existe entre o Estado e as grandes empresas.
Poderíamos dizer que o Espírito Santo é vítima de uma espécie de Síndrome de Estocolmo. Durante décadas vem sendo vítima de sucessivas agressões ambientais por parte das grandes empresas, mas prefere continuar refém delas.
Agora que a tragédia ocupa a mídia e revolta a opinião pública, aparecem algumas manifestações de repúdio às poluidoras. Na Assembleia, os deputados, alguns inclusive com mandatos “financiados” pela Vale-Samarco, não pensaram duas vezes na hora de centrar fogo nas empresas. Cabe o ditado: estão cuspindo no prato que comeram.
Apesar dos rompantes, prevalece a dualidade de sentimentos. Essa dicotomia ficou evidente na CPI do Pó Preto. Ao mesmo tempo em que os deputados queriam dar uma resposta à sociedade, em função dos males causados pela poluição do ar à saúde dos moradores da Grande Vitória, havia uma preocupação de não pôr a Vale no banco dos réus, como vilã da história. Prova disso é que o presidente da empresa foi intimado uma segunda vez a comparecer à CPI, mas não deu as caras. Aliás, avisou que foi uma única vez e não voltaria mais, como de fato não voltou. E os deputados, resignados, acabaram aceitando passivamente a negativa. Exceção a Enivaldo dos Anjos, que insiste em convocar Murilo Ferreira para uma segunda oitiva.
Na tragédia de Mariana, com extensão iminente ao Espírito Santo, não está sendo diferente. Fica a sensação de que as promessas anunciadas pelo governo do Estado, Assembleia e Ministério Público para punir a poluidora são mais para dar uma resposta à sociedade do que vontade mesmo em punir a empresa. No fundo, fica a sensação de que todos querem continuar reféns da Vale-Samarco.
Por acaso, alguém ouviu um único representante do poder público pedir para a mineradora sair do Estado? Muito ao contrário, já existe um movimento mobilizado em absolver a empresa. Os jornais desta quarta-feira (11), antes mesmo de sair o balanço oficial de vítimas fatais da tragédia, já contabilizam os prejuízos que a paralisação das operações da empresa causariam ao município de Anchieta, sede da mineradora no Estado.
A estratégia é a mesma que vem fortalecendo há décadas a imagem de que as empresas são as principais provedoras de riquezas do Estado. São elas que geram receitas aos municípios e trabalho e renda à população. As contrapartidas, nesse jogo de ilusões, compensariam os danos ambientais.
Exagero? Quem leu as declarações aos jornais do prefeito de Anchieta, Marcos Assad, e do secretário de Fazenda do município, Pablo Torres, pôde compreender por que o Espírito Santo quer continuar refém da poluidora.
Assad alertou que sem a Samarco a arrecadação de Anchieta despencará em 70%. Em tom mais catastrófico que a tragédia em si, Pablo Torres traduziu as perdas em números: R$ 2,6 milhões. O secretário, mais uma vítima clássica da Síndrome de Estocolmo, acrescentou: “A Samarco é uma grande parceira da prefeitura, inclusive com projetos sociais. Vamos torcer para que ela atravesse por esta crise logo”, disse ao site Portal27, de Guarapari.

