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Sine acqua non

O bodegueiro da esquina se orgulha do pau-ferro que emoldura sua calçada. Não foi ele quem o plantou, foi o departamento de paisagismo da prefeitura, que recomenda essa espécie vegetal porque suas raízes não arrebentam as calçadas, como fazem o angico nativo ou o flamboyant madagascarino, cujas partes subterrâneas afloram à superfície, danificando as lajes. 
 
Concordo com o bodegueiro: com seu tronco branquicento e suas folhas miúdas (que murcham ao anoitecer), o pau-ferro é uma das árvores mais belas da flora brasileira, mas – aí a discordância — os técnicos da prefeitura não deviam autorizar ou incentivar o plantio dessa espécie nas calçadas, embaixo da fiação urbana, pois todo mundo sabe que seus galhos sobem verticalmente até 30 metros de altura – mais do que seus irmãos pau-brasil e sibipiruna.
 
Quem não conhece o resultado? Quando essas grandes árvores atingem uma altura razoável, vêm os funcionários das companhias de eletricidade/telefonia e cortam seus galhos, mutilando impiedosamente a vegetação para proteger os serviços de luz e  comunicação. Embora não sirva para calçadas, o pau-ferro é adequado para parques ou canteiros centrais de avenidas largas e livres de fiações elétricas aéreas. Na arborização urbana brasileira, rivalizam com o pau-ferro em porte e beleza apenas duas árvores nativas: o cedro e o guapuruvu. Três, se contarmos a paineira. Quatro, se incluirmos a boliviana tipuana, muito usada no Sudeste e no Sul. Cinco, caso se conte a australiana grevílea. Seis com a mangueira originária da Índia e tão aclimatada no Brasil tropical. 
 
Mas em cada bodega uma sentença: o dono da mercearia do meio do quarteirão reclama da “sujeira” feita pela frondosa mangueira que orna a frente de sua loja, permanentemente arejada por uma sombra benfazeja. Todo dia de manhã ele varre as folhas mas se arrenega mesmo é com a cocozama dos passarinhos que dormem na árvore e passam a noite cagando na calçada. É o ônus da arborização. Mas, convenhamos, os bônus são muito mais numerosos.
 
Desde cedo em casa e nas escolas, as crianças deviam saber que as árvores são nossas tias biológicas e estão aí para nos proteger. Elas nos dão sombra, frescor, umidade, frutos, flores, madeira e noções de altura, volume, perspectiva e profundidade. Onde há vegetação predomina o bom humor. Os índios não sabem o que é depressão. O homem civilizado é infeliz porque se afastou a natureza, já dizia Hermann Hesse há 100 anos.
 
No entanto é fundamental saber, enquanto é tempo, que sem vegetação a vida é um deserto. Os vegetais urbanos e rurais são o nosso principal elo de ligação com o solo, base natural na qual está presente a água, substância sem a qual nossa vida não tem a menor chance de continuidade.
 
LEMBRETE DE OCASIÃO   
 
“O homem moderno não se experiencia a si mesmo como uma parte da natureza, mas como uma força exterior destinada a dominá-la e conquistá-la. Ele fala mesmo de uma batalha contra a natureza, esquecendo que, se ganhar a batalha, estará do lado perdedor”.
 
E. F. Schumacher, economista inglês, autor do livro Small Is Beeatiful (1973), editado no Brasil com o título O Negócio É Ser Pequeno.

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