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Sinuca alucinada

Pouca gente se deu conta de que nunca antes neste país a Presidência da República tinha sido ocupada por um descendente de imigrantes árabes. Antes de Michel Temer, quem esteve mais próximo do cargo foi o “biônico” Paulo Maluf. Em 1985, ele se candidatou mas foi derrotado por Tancredo Neves, eleito pela via indireta na Câmara dos Deputados.
 
O novo presidente não é um “biônico”, mas chegou lá de carona, como vice da chapa de Dilma Rousseff, defenestrada do Palácio do Planalto por uma ação de despejo constitucional promovida por uma frente tão ampla que só excluiu a Esquerda. Golpe parlamentar executado em nome da moralidade por um congresso vendido aos financiadores de campanha: na política vale tudo. 
 
A esta altura do campeonato, o que importa é saber qual poderá ser o desempenho deste político escolado no Legislativo, onde o conchavo é obrigatório e as decisões colegiadas. Como estreante em cargo executivo, Michel Temer dispõe de um mandato-tampão de apenas 28 meses; se quiser disputar um novo mandato de quatro anos, em 2018, terá de limpar sua ficha eleitoral, tisnada por uma prestação de contas irregular junto ao TSE. Tecnicamente, ele é “ficha suja”.
 
A saia é justa, mas sempre é possível dar um passo à frente, para o lado ou para trás. Por exemplo, o que fará Temer para tirar dos próprios ombros a suspeita de ser cúmplice, parceiro ou sócio do deputado Eduardo Cunha na gestão, via caixa dois, de verbas de campanha de origem criminosa – as populares propinas oriundas de empreiteiras de obras públicas?  
 
Quanto à administração pública, que é o que interessa de fato, ficou evidente durante o período de afastamento da presidenta Dilma, entre 17 de maio e 31 de agosto, que o vice indicado pelo PMDB, no afã de garantir a expulsão do PT do Palácio do Planalto, deixou-se levar pelos partidos situados à sua direita (DEM, PP, PR, PSD, PSDB etc.).
 
É um alinhamento perigoso: ainda que tenha se tornado o eixo de uma nova inflexão política conservadora reclamada pelo Mercado (que representa os EUA, a banca, o empresariado, a classe média, as famílias consumidoras e as igrejas), o PMDB não terá respaldo popular se trabalhar contra os interesses da maioria trabalhadora, retirando-lhe direitos trabalhistas e previdenciários, como vem sendo anunciado; ou cortando verbas para programas sociais.
 
A saia também é justa para Temer até mesmo dentro do PMDB, onde se movimentam, dando-se cotoveladas e rasteiras, diversos protagonistas habituados a agir por impulso, sem atender à disciplina partidária – os mais salientes são Renan Calheiros e Roberto Requião. Dentre todos o mais bicão é Eduardo Cunha: mesmo com as asas aparadas, ele exibe a envergadura moral de um gavião. Não admira que seja tão temido.
 
Não parece haver muita esperança de que o PMDB, acostumado a agir como coadjuvante, assuma o papel de protagonista central do jogo político brasileiro, até mesmo porque não se sabe claramente qual a prioridade administrativa do país – se a economia, a política, a educação, a saúde ou a segurança das pessoas e de seus pertences. Mas tudo indica que a inclusão social e a distribuição de renda são cartas fora do baralho – primeiro porque foram usadas nos últimos 13 anos pelo PT; segundo, porque não fazem parte das prioridades dos assaltantes que acabam de tomar o Poder. Por incrível que pareça, do núcleo central do novo governo, o menos dotado de ideias próprias é o chefe. Falto de autonomia, descortínio e liderança, ele tende a engolir os pratos feitos que lhe puserem na frente.
 
Estamos diante de um enredo tão rico que a crônica política brasileira, assim como a história econômica nacional, promete superar a ficção mais surrealista. Começa que os vices são patéticos. Lembremo-nos de João Goulart, José Sarney e Itamar Franco. Assumiram a vaga de titular para cumprir o rito, cientes de que não estavam ali para valer. E assim todo mundo acredita que eles não merecem respeito. Será diferente com Temer, “o fenício”?
 
Para tentar descobrir qual o futuro de Temer, será interessante buscar na História o papel exercido pelos arabedescendentes na realidade brasileira. Os estudiosos da presença árabe no Brasil concordam que a imigração sírio-libanesa teve quatro fases:
 
I – De 1880 a 1920
 
II – De 1920 a 1940
 
III – De 1945 a 1975
 
IV – De 1975 a 2000
 
Pouco estudada ainda, há uma quinta fase que corresponde à migração mais recente de palestinos atingidos por disputas de territórios e conflitos religiosos. Também muito afeitos ao comércio, esses neoimigrantes são particularmente atuantes em cidades fronteiriças como Livramento, Jaguarão e Chuí, além de Foz de Iguaçu, nos estados do Sul.
 
Em todas fases históricas, os imigrantes árabes não contaram com subsídios oficiais como aconteceu com alemães e italianos: eles saíram de seus países por conta própria, em busca de melhores condições de sobrevivência econômica. É certo que encontraram no Brasil um clima propício à prosperidade individual, sem restrições de qualquer natureza. A não ser por algum preconceito (hoje bastante carregado de afeto) contra os “turquinhos”, a relativa tolerância racial, religiosa e política existente no Brasil contribuiu para despertar nos arabedescendentes um novo sentimento de pátria que se manifesta no afã com que chamam parentes e amigos para experimentar esta terra.
 
Na política, caso de Temer, eles tendem a comportar-se conservadoramente. Há poucas exceções à esquerda, caso do ex-governador capixaba Vitor Buaiz, cuja marca principal é o humanismo. No centro democrático, tivemos a figura do ex-governador gaúcho Pedro Simon, que sempre perorou contra os corruptores. Na direita, ninguém superou Paulo Maluf, cujo sobrenome inspirou até um novo substantivo – malufismo, que representa um passo adiante do fisiologismo.
 
O fato é que, mais de um século depois da chegada dos pioneiros, o Destino colocou no Palácio do Planalto um arabedescendente. “Fora Temer”, gritam seus opositores, não por sua origem étnica, mas por sua extração política reacionária. Não se ouve ninguém incentivá-lo ostensivamente. É real a sensação de que o sujeito, por chegar de carona ao trono, não merece ficar ali e precisa ser tratado como figurante, coadjuvante ou inapto. É uma provação para os brasileiros.
 
De Michel Temer, por enquanto, sabe-se como chegou lá; a partir de agora, vamos ver se é capaz de sair da sinuca em que se meteu. De imediato, alguém precisa lhe dizer que o taco de bilhar não serve para bater em trabalhador, aposentado e pobre.  
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Depois da onça morta, até cachorro mija nela”
Ditado popular brasileiro

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