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Segunda, 26 Outubro 2020

Sonhar não paga imposto

Há dois meses saiu no caderno de Logística do Jornal do Comércio de Porto Alegre uma matéria cujo título - "Itapemirim quer entrar no setor aéreo, mas pode falir" – me chamou a atenção por conter uma evidente contradição. Ou, seja, não me pareceu lógico que uma empresa em recuperação judicial (novo nome da velha concordata) queira investir num setor que exige grandes investimentos em equipamentos, pessoal e tecnologia.

Aí tem um erro do jornal, pensei. Ou, quem sabe, uma jogada a esclarecer. Afinal, há cerca de 30 anos a Itapemirim operou no transporte aéreo, do qual se retirou por não aguentar o repuxo. Se agora está em dificuldades só com os ônibus, de onde vai tirar forças para dar um salto para o modal mais arriscado do transporte?

O texto se estendia por uma página de tabloide. No alto, a foto de um busão amarelo com a seguinte legenda: "Famosa pelos ônibus amarelinhos, companhia possui atualmente uma frota de 573 veículos, sendo que 303 estão fora de operação".

Fazendo uma conta simples, conclui-se que a Itapemirim está operando com menos de metade de sua frota. Daí a pergunta: a maior parte dos seus ônibus está encostada por falta de passageiros? Ou parou por falta de peças de reposição? Ou está sem gente para fazer a manutenção? Ou quem sabe parte da frota estaria sob penhora?

Segundo uma tabela publicada sob a foto do busão citado acima, em 1990 a empresa possuía 1.700 ônibus. Portanto, reduziu a no máximo um terço o seu potencial de faturamento.

Segundo o jornal, a situação da empresa se deteriora desde 2000, quando o setor de transporte rodoviário de passageiros passou a sofrer forte concorrência do transporte aéreo e, além disso, viu seu público migrar para sistemas alternativos de transporte, inclusive clandestinos.

A solução foi entrar em recuperação judicial em 2016. A esse drama se acrescentam outros dois, ambos na Justiça. De um lado, o fundador Camilo Cola, aos 97 anos, luta para tirar do comando o atual presidente. De outro, sucedem-se ações judiciais de credores, entre os quais figuram Estados que cobram ICMS não recolhido aos cofres públicos. Recorde-se que a Secretaria da Fazenda do Espírito Santo, na gestão de Rogério Medeiros (1995-98), publicou anúncios em primeira página de jornais capixabas afirmando que Camilo Cola era sonegador.

Um dos desdobramentos dessa questão fiscal foi mudança da sede fiscal da Itapemirim para São Paulo. Segundo um levantamento feito recentemente para a Justiça paulista, a dívida tributária da empresa é de R$ 2,2 bilhões. Segundo a direção da empresa, esse valor é exagerado - a dívida não passa de R$ 1 bilhão. Assim mesmo, é mais do que o dobro do faturamento anual.

Com prejuízos contábeis de mais de R$ 100 milhões em cada um dos últimos dois anos fiscais (2018 e 2019), a Itapemirim não atravessa um bom trecho, mas eis o motivo do otimismo expresso na manchete citada acima: o presidente da Itapemirim, Sidnei Piva de Jesus, participou em fevereiro de uma missão empresarial paulista ao Oriente Médio, de onde voltou animado com a promessa de um fundo dos Emirados Árabes de investir 500 milhões de dólares na Itapemirim Transportes Aéreos, cujo nome de fantasia bem poderia ser, quem sabe, Yelloways.

LEMBRETE DE OCASIÃO

"Depressa, meu irmão/E sai da pista/Que o Brasil é um trem/Sem maquinista!"

Millor Fernandes em A Bíblia do Caos (L&PM, 2002)

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