É assustador ler as notícias quase diárias de acidentes com mortes ocorridas na BR 101, uma rodovia banhada a sangue. Entre 8 e 13 de março, por exemplo, foram sete mortos, mais do que um por dia. E de quem seria a responsabilidade por tais acidentes?
A maior parte é atribuída pelo consórcio responsável e poder público aos próprios condutores, como se tais se lançassem na rodovia como suicidas em busca da própria morte. A questão é que, caso a pista já estivesse duplicada, conforme previa o acordo de concessão firmado entre o governo Federal e a ECO 101 em 2013, os acidentes teriam sido drasticamente reduzidos.
Somada à imprudência real de alguns condutores, sim esse é um fato que não se pode negar, há outros componentes que, de acordo com especialistas, contribuem para o alto índice de mortes na BR 101. Entre eles, o aumento do fluxo; a fragilidade dos veículos modernos, que não suportam colisões acima de 40 quilômetros por hora; e também a falta de área de escape na pista. Rodovias duplicadas reduzem o número de colisões frontais. Isso é indiscutível.
Sim, parece até piada, mas duplicação da BR-101 estava prevista em contrato desde 2013. Passados cinco anos em que a cobrança de pedágios simplesmente não foi interrompida – pelo contrário, o preço só aumenta -, até setembro do ano passado não havia sequer um quilômetro duplicado. Detalhe: de acordo com o tal contrato, a duplicação deveria ter começado em maio de 2014. Passados três anos, veio o anúncio chocante: em julho de 2017, a ECO 101 anunciou que não tinham condições de fazer a obra. Alegou, para isso, a crise econômica, a demora na concessão de licenciamentos ambientais e desapropriações de áreas particulares.
Simultaneamente ao anúncio de que a ECO 101 não faria a duplicação da rodovia, um acidente deixou o Estado em luto. No dia 22 de julho do ano passado, 23 pessoas morreram após uma colisão envolvendo um caminhão e um ônibus de passageiro. Poucos dias depois, no dia 10 de agosto, em Mimoso do Sul, mais uma tragédia matou 11 pessoas e feriu nove. Dois caminhões, um carro e um micro-ônibus, que transportava membros do grupo de dança Bergfreunde, tradicional em Domingos Martins, colidiram frontalmente.
Depois de muita pressão, no final de 2017, a ECO 101 anunciou a retomada das obras em trechos de seis cidades. Cerca de 48 quilômetros, segundo ela, seriam duplicados dos 475,9 da rodovia em território capixaba. Coincidentemente, neste ano de desgate à imagem para a concessionária, empresas que fazem parte do consórcio resolveram “pular do barco”. Em janeiro, deixaram a ECO 101 o consórcio capixaba Centaurus Participações S/A, que detinham 27,50% das ações, e ainda o consórcio gaúcho Grant Concessões, que tinha 4,5% das ações. As empresas eram de seis conhecidos grupos empresarias: Coimex, Águia Branca, A. Madeira, Urbesa/Arariboia, Tervap, Contek.
Enquanto todos esses fatos se desenrolam, a sociedade capixaba parece impotente. Seus representantes em Brasília parecem mais preocupados com um bandeira que pode render mais votos, que é a redução do pedágio, mas não exigem, com contundência e prioritariamente, a obrigatoriedade que o Consórcio tem de cumprir o contrato, ou seja, duplicar a rodovia o quanto antes para estancar as mortes que vem ocorrendo com frequência. Parlamentares da bancada capixaba consideram vitória o fato de o pedágio este ano “aumentar menos”.
Os empresários que fogem às responsabilidades na administração da rodovia contribuem para uma alarmante estatística. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) aponta 187 mortos em 2017 nas rodovias federais do Estado. No ranking nacional, o Espírito Santo ocupou o 11º lugar com mais acidentes. Boa parte deles na BR 101.
É o sangue dos capixabas que continua jorrando pela estrada…

