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Telefone para o além

Edinho faz tatuagens, ou melhor, ganha a vida fazendo tatuagens nos outros, que nele mesmo nunca fez. Começou cedo, porque um tio fazia e ele ficava assistindo, aprendendo calado. Tudo porque as garotas do colégio queriam tatuagens, e seria um jeito de fazer amizades, se entrosar, se destacar dos mais bonitos e mais espertos, ou ter contatos imediatos de graus mais avançados.
 
O nome foi uma homenagem a Thomas Edison, de quem o pai era fã. Se perguntar a qualquer criança nos países civilizados quem inventou a lâmpada, todas vão responder que foi Edison, que por causa de uma ideia luminosa, ficou rico e famoso antes dos 40. Tal feito teria bastado, pois sem lâmpadas estaríamos ainda escrevendo à mão, sob luz de velas, mas o sujeito não parou aí, e enquanto vivo registrou 2.332  patentes, sobre quase tudo que a gente precisava para ser feliz.
 
O fonógrafo, por exemplo, e sem ele não teríamos Lady Gaga. Também inventou  o cinescópio, uma das primeiras máquinas de filmagem,  o vitascópio, o primeiro projetor, e se não inventou, melhorou muito o telefone. Outra de suas invenções foi uma caneta elétrica, que possibilitou  o mimeógrafo e a agulha de tatuagem, e que ele mesmo usou para fazer uma tatuagem no braço. A tatuagem já existia muito antes da caneta de Edison. Otzi, o homem do gelo, cuja múmia de 5.300 anos foi encontrada na Áustria, tinha 50 tatuagens, quase todas feitas nos pontos onde hoje se faz acupuntura.
 
Lá pelos idos de 1800, europeus ricos iam ao Japão para se tatuar. Um deles foi o rei da Inglaterra, George V, que mandou fazer um dragão no braço. O pai dele,  Eduardo VII, tinha muitas tatuagens. Edinho nunca tatuou ninguém rico ou famoso, nem jamais sonharia tatuar aquele tigre nas costas da Angelina Jolie, mas o ofício dá pros gastos. A esposa Mira é médium, arte que aprendeu com a avó. Se os fregueses de Edinho são sempre jovens, os de Mira estão acima dos 50 – quem mais vai querer se envolver com os mortos? Talvez a desvantagem de Mira seja por falta de dispositivos eletrônicos modernos para alcançar o além.
 
O que pouca gente sabe é que esse mesmo Thomas Edison, avô da  revolução tecnológica, andou trabalhando também na área do inefável, tentando criar um telefone que falasse diretamente com os mortos. A premissa de um bom cientista é, se  existe uma necessidade ou um desejo popular, deve haver uma invenção capaz de preenchê-la. Numa entrevista de 1920, Edison revelou que estava trabalhando há algum tempo em um aparato para ver se era possível as personalidades que haviam deixado esse mundo se comunicar conosco.
 
O tal aparato, que ele disse ser uma válvula, não seria para falarmos com os mortos, mas sim para os mortos se falarem com os vivos, se quisessem. Quando um de seus funcionários que trabalhava no projeto faleceu, Edison achou que ele por certo teria tentado se comunicar com alguém. Como o ingrato nunca deu notícias, talvez Edison tenha concluído que seu invento não funcionava. O aparelho nunca foi mostrado ao público, e após a morte de Edison, nunca foi encontrado. Teria mesmo existido? Sabendo dessa história, Mira bem que tentou uma comunicação, mas Edison não voltou para contar.

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