Classificado de jornal também é cultura. Podemos conhecer em poucos dias a geografia física de um determinado lugar, mas a geografia social exige tempo e paciência. Leia os classificados, um jeito prático e barato de conhecer melhor a boa alma da gente local. Ou conhecer um lugar mais intimamente, digamos.
Pelo tipo de anúncio se pode conhecer a realidade da cidade e do povo, o que existe atrás das imagens expostas em outodoors e enviadas nos cartões postais. Um bom exemplo é o eixo Londrina – Maringá, região de forte descendência de imigrantes japoneses. Os classificados dali são diferentes dos de outros estados.
Os jornais locais têm folhas inteiras dedicada à emigração para o Japão. Filhos e netos dos imigrantes fazem hoje a viagem inversa, o Eldorado ainda está lá. Agências especializadas levam nisseis e sanseis brasileiros para trabalharem no país do sol nascente, fazer o pé de meia, e voltar correndo.
Também chovem anúncios de pessoas procurando casamento com descendentes para obterem o visto de trabalho, agências de viagens anunciando facilidades nas compras de passagens – compre agora e pague quando estiver ganhando em ienes.
Morei em Londrina há muitos anos, e não sei se as coisas mudaram por lá. Surgiram denúncias de que trabalhar no Japão não era tão bom assim, falavam e trabalho escravo, discriminação, etc. Mas conheci muita gente que foi e voltou com $$$ suficiente para realizar o sonho de consumo brasileiro: comprar apartamento e carro, montar seu próprio negócio.
Na Flórida a grande maioria dos classificados dos pequenos jornais locais é sobre o sonhado green card, o visto de residência definitiva. Um casamento com americano(a), com o fim de obter o visto, custa 5 mil dólares. Casar com cubano é melhor ainda: mais barato e o visto sai mais fácil. Por quê? Há mais mistérios entre as relações diplomáticas…
Aqui nos States, a grande variedade de jornalecos brasileiros, de péssimo português ( todos estão esquecendo a língua?) anuncia advogados que garantem a obtenção do visto definitivo, agências de turismo que vendem passagens baratas para o Brasil, lojas de produtos importados brasileiros que anunciam de tudo “do biquini à farinha de mandioca”. E as campeãs absolutas: as agências de remessas de dólares.
Aí a via depende da economia: se as coisas estão bem por lá, o dinheiro vem; se as coisas estão bem aqui, o dinheiro vai. A maioria dos brasileiros no sul da Flórida é de Governador Valadares, e a capital é Pompano Beach, o chamado Little Brazil. Tem seus próprios jornais, igrejas evangélicas, restaurantes de comidas típicas mineiras e todo um comércio voltado para a colônia.
Os jornaizinhos anunciam imóveis em Governador Valadares, que eles compram com os dólares que vão amealhando aos poucos. Como os cubanos, os valadarenses estão sempre dizendo que voltam para seu paraíso tropical, assim que…

