O Ministério Público Estadual (MPES) anunciou que irá investigar os recorrentes episódios de suicídios que têm ocorrido na Terceira Ponte. A iniciativa é mais um passo importante no sentido de quebrar o tabu que há em torno do tema e procurar soluções para coibir a ação daqueles que atentam contra a própria vida.
A imprensa capixaba sempre tratou o tema com reserva por um simples motivo: a divulgação de um suicídio pode estimular outros casos. As estatísticas, de fato, confirmam essa tese. Mas não se pode ignorar os fatos.
Neste ano, a imprensa capixaba abriu exceção para divulgar casos de suicídio que estavam ligados a outro contexto. Em fevereiro deste ano, o empresário Rodrigo Fraga, 35 anos, após se envolver com uma quadrilha especializada em lesar o fisco, tirou a própria vida a se atirar do vão central da Terceira Ponte.
Um dos jornais justificou que divulgou o caso do empresário e outros dois este ano por terem ocorrido em decorrência de um homicídio.
O fato é que os casos de suicídio na Terceira Ponte não passam mais pelo crivo da imprensa em decidir divulgá-los ou não. Só nesta terça-feira (10) foram dois casos. Em tempo real, havia vídeos circulando nas redes sociais exibindo os detalhes do mórbido acontecimento.
Embora ainda haja um grande tabu em torno do tema, não dá mais para adiar a discussão. Se a imprensa não definir uma estratégia para entrar no assunto, as redes sociais vão se encarregar de dar publicidade aos casos de suicídio de maneira que cada um julgar mais conveniente: ou seja, sem nenhum critério ou ética.
Há projetos tramitando ou que já tramitaram na Câmara de Vitória e na Assembleia Legislativa. Basicamente, os projetos sugerem a instalação de telas de proteção na ponte. As defensas poderiam evitar, ou ao menos retardar, a ação dos suicidas.
Na Assembleia do Rio de Janeiro tramita projeto de lei semelhante ao do Espírito Santo. O intuito e evitar as mortes na Rio-Niterói, não só os suicídios como também os acidentes automobilísticos. É comum o motorista ser surpreendido por uma pane no veículo durante a travessia, parar para aguardar socorro, e ser atingido por outro veículo. Só este ano duas pessoas foram arremessadas ao mar nessas circunstâncias. Mais um motivo para os defensores das contenções pedirem mais celeridade na aprovação dos projetos.
Em 2008, um projeto chegou a ser aprovado pela Assembleia capixaba, mas o então governador Paulo Hartung vetou. Este ano, os deputados ressuscitaram a discussão logo após os três casos sucessivos de suicídio, mas o projeto foi considerado inconstitucional.
É inevitável que o assunto seja discutido com transparência, sem receio de que o debate possa estimular novos episódios de suicídio. O MPES já solicitou à Rodosol, responsável pela manutenção da ponte, um relatório circunstanciado com a estatística de mortes registradas nos últimos anos. Essa é a primeira vez que o órgão ministerial examina a segurança da ponte, motivado pelos casos que ganharam repercussão no início deste ano.
A entrada do Ministério Público no caso pode aumentar a pressão sobre o governo do Estado e a concessionária no sentido de se exigir a instalação grades de proteção ao longo da ponte.
Embora todas as vezes que as sugestões apontaram a instalação de teas de proteção como solução para o problema, a concessionária se mostrou resistente à proposta. A Rodosol sempre insistiu que as proteções não seriam eficientes. A sugestão para coibir os suicídios foi clamar à imprensa que não divulgue os suicídios para não estimular novos casos.
O silêncio como estratégia parece que está sendo pouco eficiente.

