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Tiro certeiro

Protestos em Vitória, reclamações sucessivas de várias comunidades. O motivo? O governo do Estado, na figura da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), quer acabar com escolas do campo em nome de um dos seus principais projetos de vitrine, o Escola Viva.
 
As reações ganharam novo alcance nos últimos dias, após um grupo formado por professores e estudantes de Afonso Cláudio, interior do Estado, vir à capital reivindicar o direito à educação para comunidades rurais que estão sem o ensino médio noturno. O governo quer obrigar os alunos de Mata Fria, São Francisco, Vila Pontões, Piracema e Fazenda Guandu, a se deslocarem até 40 quilômetros em estrada de chão para ingressar no Escola Viva, instalado na sede do município. A maioria não teve escolha: abandonou os estudos.
 
Decisão de gabinete com fórmula pré-fabricada, o Escola Viva, metodologia do Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação (ICE), desde sua concepção, em 2015, nunca levou em conta a opinião de quem mais importa: a comunidade escolar, professores, servidores e alunos, além das famílias. Resultado? A comida pré-fabricada, preparada com quem tem aquela pressa usual de ampliar o portfólio de mandato, tem causado indigestão.
 
A princípio tudo soa como uma ótima ideia: criar um ensino em tempo integral, uma escola modelo com atividades extracurriculares. Nessa nova fórmula, o tempo de permanência do aluno na escola é ampliado para um período diário de nove horas e meia, sendo, no mínimo, sete horas e 30 minutos em atividades com orientação pedagógica. Entre as ações previstas estão o uso de mídias (televisão, jornal, rádio e revista) de forma articulada e a ampliação do currículo escolar com atividades nos campos da cidadania, ética, cultura e artes, esporte e lazer, direitos humanos, educação ambiental, inclusão digital, saúde, investigação científica, educação econômica e comunicação. No papel, tudo muito lindo! 
 
Mas a prática tem revelado que, sem discussão e sem levar em conta muitas variáveis e particularidades como a educação no campo, algo poderia dar muito errado, e foi exatamente o que aconteceu recentemente em Afonso Cláudio e em outras escolas que vêm denunciando a mesma situação desde o início do projeto. As características de várias famílias e comunidades continuam sendo completamente ignoradas pelo governo.
 
Na época da implantação do Escola Viva, poucos da classe política tiveram coragem de tecer críticas ao projeto. Na Assembleia Legislativa, uma das poucas vozes dissonantes é a do deputado Sergio Majeski (PSDB), que logo disparou que o projeto nada mais era do que vitrine da campanha eleitoral de Paulo Hartung (PMDB). Majeski, que é da área da educação, classificou o programa como “marqueteiro” e “politiqueiro”, desagradando os deputados da base.
 
Outra crítica séria estava no fato de o governo instalar Escolas Vivas, mas maquiar a real situação de mais de 400 escolas regulares que existem no Estado e que funcionam em estado precário. 
 
A história do Escola Viva em Afonso Cláudio lembra a metáfora do tiro que parecia tão certeiro, mas que, literalmente, saiu pela culatra. Um disparo matador que desvia do alvo e acerta o próprio atirador. Quem dera! Os feridos de morte, nesse caso, foram mesmo os sonhos e futuro dos estudantes da zona rural.

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