É ingênuo pensar que a temporada de “caça às bruxas” aberta contra o deputado Sandro Locutor (PROS) é resultado da “faxina ética” que está em moda no Brasil. Na terça-feira (31), o jornal A Gazeta publicou reportagem dando grande destaque aos gastos da Assembleia com viagens do deputado que, na função de presidente da União dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unales), tem representado a entidade em diversos estados e até no exterior. Segundo a publicação, a Assembleia gastou de 2012 até abril deste ano quase R$ 50 mil com despesas de hospedagem com o deputado — as passagens áreas são custeadas pela Unale.
No dia seguinte à reportagem, o jornal A Gazeta acentuou a “farra” com o dinheiro público com um duro editorial, exigindo a apuração dos gastos. Nesta quinta (2), o jornal voltou a repercutir o assunto, desta vez com a Transparência Capixaba. O secretário-geral da ONG, Edmar Camata, mostrou-se indignado com o uso do dinheiro público para custear causas de uma entidade privada, se referindo à Unales.
Camata, após avisar que levaria a denúncia aos órgãos competentes para apuração, advertiu que a Transparência vai exigir que o deputado devolva o dinheiro aos cofres públicos.
Primeiramente, antes de aderir ao linchamento público ao deputado, é preciso esclarecer que Locutor está sofrendo represália do governador Paulo Hartung (PMDB). Ele, recordemos, foi o autor do requerimento sobre as informações das viagens da primeira-dama, Cristina Gomes, que viajou dezenas de vezes para o Rio de Janeiro e São Paulo com dinheiro público. Na época, o então candidato ao governo Paulo Hartung ficou extremamente irritado com o pedido do deputado, sobretudo após a notícia repercutir na mídia nacional e colocá-lo numa saia-justa tremenda em plena campanha.
Curioso que na ocasião dos fatos, tampouco depois, a Transparência Capixaba nunca se manifestou sobre o episódio das viagens da primeira-dama, embora Cristina tenha feito mais de três dezenas de viagens e gastado mais de R$ 80 mil entre passagens aéreas e hospedagens. Tudo pago com o dinheiro do contribuinte.
Além de não demonstrar o mesmo zelo com a coisa pública no caso das viagens da primeira-dama, a Transparência Capixaba tampouco se manifestou sobre os “motivos” que teriam levado Cristina dezenas de vezes para o Rio e São Paulo. Hartung disse que era para tratar de assuntos relacionados ao Cais das Artes. Aliás, um “elefante branco” que já dragou mais de R$ 200 milhões dos cofres públicos e ainda não foi entregue à população.
A obra faraônica de Hartung deveria ser um prato cheio para a Transparência, não deveria? Já que a missão da ONG é exigir transparência, deveria também agir como o mesmo ímpeto nos requerimentos de informações que alguns deputados têm feito ao governo do Estado. A propósito, Sandro Locutor tem sido o mais incisivo entre os parlamentares quando o assunto é transparência. Recorreu até ao Ministério Público para exigir respostas do governo que são sonegadas há mais de ano. Essa posição firme de Locutor também explica que a perseguição é uma represália ao deputado
A omissão em casos escandalosos como esse põem a credibilidade da Transparência em xeque. É inevitável não classificar a manifestação ao caso de Locutor como uma manobra premeditada e oportunista.
Seria louvável aplaudir a iniciativa da Transparência em exigir a apuração de todos os casos que denotam suspeição sobre o uso do dinheiro público se a ONG sempre fosse imparcial no seu trabalho de fiscalização. Lamentavelmente, o retrospecto da ONG confirma que a Transparência só usa sua lupa da moralidade quando lhe convém.

