Perguntei ao diretor financeiro de uma indústria alimentícia se os reflexos da crise econômica já haviam chegado ao seu departamento. Sim, ele respondeu, tivemos uma queda de 15% no faturamento porque as pessoas estão comprando menos e reaproveitando melhor os alimentos. Isso não é ruim em si, é um sinal de que a crise impõe certa racionalidade ao comportamento das pessoas, inclusive dentro das próprias empresas, que aproveitam o momento para se reciclar.
Mesmo tendo reduzido de 90% para 75% a utilização da capacidade de produção, a indústria acima continua rodando dia e noite, mas está aproveitando a redução do ritmo para aprimorar a manutenção, reformar máquinas e ajustar o processo produtivo, melhorando as entregas, renovando a frota distribuidora, trocando funcionários, revisitando clientes mais ou menos esquecidos etc.
Por enquanto tudo bem, explica o diretor, lembrando porém que há casos de empresas (como a indústria de veículos) que chegaram ao ponto de dar férias coletivas para seu pessoal no afã de acomodar-se à crise sem o recurso extremo da demissão em massa. Mas há indícios de que caminhamos para lá.
Pedro Paulo Bastos, professor da Unicamp, matou a charada com a pergunta feita à repórter Lúcia Guimarães, do Valor: com os juros altos inibindo o consumo, os investimentos públicos e privados caindo, as concessões públicas prejudicadas pelas empreiteiras envolvidas na Operação LavaJato e as exportações dependentes da economia mundial, como o Brasil vai crescer?
Não tem jeito, por isso estamos dentro de um processo de estagnação econômica cujos desdobramentos são imprevisíveis.
Mantida a política de ajuste fiscal, que configura o remédio errado para a velha doença do endividamento do Tesouro, a estagnação vai ingressar na zona cinzenta da recessão econômica, agravando a queda nas vendas, provocando a redução na arrecadação fiscal, gerando demissões e assim por diante, até botar no chão os índices de popularidade da presidenta da República, que aliás nunca estiveram tão baixos.
Depois de sete meses de arrocho, está começando a ficar claro que a senhora Economia, que é muito bem casada com o Senhor Mercado mas não dispensa os incentivos fiscais e outros benefícios custeados pelo Estado, reagiu mal ao “choque de gestão” ministrado pelo governo, conforme preconizava o candidato da oposição Aécio Neves durante a campanha presidencial de 2014.
O que dizer agora que o filho do distinto casal, o jovem PIB, mergulhou num sono hibernal graças à dieta aplicada pela junta médica constituída pelos doutores Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alex Tombini? Brincadeira!, diriam alguns paulistas.
Ninguém tem certeza de nada, ainda mais que à crise econômica se adicionou a crise de credibilidade do governo, mas há pelo menos uma vantagem indiscutível no quadro atual: não há mais unanimidade quanto à política econômica adotada pelo segundo governo de Dilma Rousseff. Cresce a contestação e proliferam as críticas. Só falta encontrar uma nova receita com remédios menos amargos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Se a dívida pública for aumentar, é melhor que aumente por um programa de gastos que tire a economia da recessão, do que por um programa de corte de gastos que produza uma recessão”
Pedro Paulo Bastos, professor da Unicamp, em entrevista ao diário Valor Econômico

