Diz uma lenda bem encrustada no anedotário capixaba que houve outrora uma famosa dama da noite que circulava – com chofer uniformizado, porque não sabia dirigir – em um caríssimo e espalhafatoso Cadillac branco. Isso num tempo em que carro importado era raridade – os pequenos modelos japoneses e coreanos não haviam desbancado os exagerados carros americanos e o preço da gasolina ainda permitia pôr aqueles devoradores de combustível nas estradas.
Apesar do auto preço, o carro foi pago com dinheiro vivo, uma em cima da outra, como diz o vulgo, cuidadosamente retirado de seu cofre-forte – o imenso sutiã que resguardava a força motriz da riqueza da famosa dama. “Tá tudo aqui, pode contar”. O Cadillac branco com estofamento vermelho passou a ser a carruagem onde a cinderela moderna, feia e sem príncipe, desfilava pelas ruas de Vitória, matando as mulheres de inveja e os homens de desejo.
Na hora de assinar os papéis a dama da noite, já travestida em muito bem sucedida mulher de negócios, molhou o dedão da mão direita na tinta e imprimiu suas impressões no documento – não sabia sequer assinar o nome. A feliz compradora então contou ao estupefato vendedor que não tinha conta bancária e talão de cheques, por ser analfabeta ou porque seu ofício a tornava uma correntista indeseja. Essa história me foi contada pelo próprio vendedor do Cadillac.
No entanto, para não dizer que compro um burro sem lhe olhar os dentes, vasculho o Google e encontro um artigo do mestre Rogerio Medeiros (Revista Século Diário, 12/09/2009), dizendo que ela foi uma das maiores correntistas do Banestes: “O Banestes a tratava com a deferência dispensada aos grandes depositantes e sabia muito bem disfarçar o fato de ela ser analfabeta e não assinar o próprio nome”.
O Cadillac sempre dominou a fantasia dos novos ricos. Elvis Presley comprou seu primeiro Cadillac cor de rosa, em 1955, que acabou incendiado. Ele disse, 'O primeiro carro que comprei foi o carro mais bonito que já tinha visto… eu ficava acordado a noite toda apenas olhando para ele…”. Pouco depois ele comprou o segundo Cadillac. Era azul, e ele mandou repintar em um novo tom de rosa chamado ‘Elvis Rose’. O carro, que depois foi dado à mãe dele, é o carro mais famoso do mundo. Elvis teve seis Cadillacs.
Depois do sucesso de seu calhambeque, Roberto Carlos se rendeu à magia do carrão exagerado e vistoso, e compôs. ‘O Cadillac’, em 2003. Homenageava então o belo carro vermelho cintilante que comprou do Emerson Fitipaldi, “com seis metros de comprimento”, diz na canção. Na verdade, o carro tinha oito. Apesar da classe e do preço desse elefante branco, hoje o carro mais famoso do Brasil é o calhambeque do Roberto.
A dama dessa história hoje teria um jatinho, talvez um iate que navegaria pela baía de Vitória provocando a ira dos moralistas da vez. Mas as auroras de ontem não existem mais, e nem a moral e os bons costumes são como antes. Beleza hoje é fundamental, embora os instrumentos de trabalho da dama da noite de que vos falo tenham até passado pelas mãos milagrosas do Dr. Pitanguy.