Se alguém ainda tinha dúvida sobre qual o modelo de Estado dos sonhos de Paulo Hartung, não tem mais. Na entrevista à revista Época (08/07/2016) o governador deixa claro que o Estado ideal deve ser mínimo, enxuto, magrinho. Por isso, a receita do peemedebista é vender o que for possível vender e terceirizar o que sobrar, cortando servidores, e consequentemente serviços. E não precisa dizer o resto: a população mais pobre que corra atrás e trate de se virar para sobreviver. Afinal, a palavra da moda é meritocracia: as oportunidades estão aí para quem quiser. A lógica não é essa?
Para o governador, os Estados são pesados e envolvidos em atividades não prioritárias. Ele diz que o Estado tem de concentrar recursos nas chamadas áreas essenciais: saúde, segurança e educação. Contrariando a posição de alguns analistas econômicos, Hartung defende a privatização ampla, geral e irrestrita e para já, mesmo em plena crise econômica.
Para sustentar sua tese à revista semanal, ele recorre à economia doméstica. “Se você tem um automóvel, está com as contas familiares desorganizadas e numa crise, você vende o carro para, no momento seguinte, fazer com que alguém da sua família tenha uma educação melhor. A privatização é a aposta que temos de fazer para botar o país, de novo, no eixo do crescimento econômico, com distribuição de renda sustentável. Chega de voo de galinha. Temos de ter voo de águia. Se ficarmos esperando o outro momento, seguramente ele não virá”.
O discurso não poderia vir em melhor hora porque inclui Hartung no movimento de lideranças identificadas com os conceitos neoliberais de Estado Mínimo, cada vez mais na moda nesses tempos de Lava Jato. Esse é mesmo grupo que trabalhou para exorcizar o PT do poder; que não tem poupado críticas a Michel Temer, cobrando medidas mais audaciosas do governo interino, como a reformulação da Previdência, um novo processo de privatização no País e um ajuste fiscal corajoso.
Hartung, é preciso reconhecer, tem aproveitado essa oportunidade como ninguém. Ele pode provar que seu discurso é crível porque tem um “case de sucesso” em suas mãos: o Espírito Santo. Para fora, esse discurso tem saído melhor que a encomenda. É igual a vender guarda-chuva em meio a uma tempestade.
O trabalho de assessoria impecável tem desbravado espaços nunca antes frequentados pelo governador. Quem lê a entrevista da Época e não conhece Hartung ou tampouco o Espírito Santo pode facilmente se empolgar com a história de sucesso do governador. Afinal, faz um ano e meio que ele vem construindo essa história, e só agora começa colher os frutos mais frondosos. Seu nome já foi lembrado para a Fazenda e até para a sucessão de Temer. Tudo especulação, mas, para o propósito, serve. E como serve.
O discurso se encaixa no atual momento de suscetibilidade da sociedade. As pessoas ainda estão sob os impactos da Lava Jato, aturdidas com o nível de corrupção da classe política brasileira. Num momento em que os políticos, de maneira geral, são vistos como os principais operadores dessa máquina de corrupção instalada nas entranhas do Estado, conseguir se descolar desse estereótipo de político que gera asco à sociedade já é um negócio e tanto.
E como se opera esse milagre? Criticando, como fez Hartung, o governo Dilma, e também o governo interino, em sintonia com a demanda da rua que queria destituir Dilma e o PT, e que agora segue intolerante com Temer.
Hartung quer ser identificado a outra estirpe de políticos. Aqueles que estão à frente do seu tempo, visionários que fazem política com “P” maiúsculo, condenam a marcha da insensatez, tem perfil empreendedor e não se apegam a partidos e tampouco a ideologias político-partidárias. O governador capixaba se considera pertencente a uma casta de lideranças que se parecem mais com empresários, porque enxergam o Estado como um empreendimento e as oportunidades públicas como negócios.
Na entrevista, Hartung aponta o caminho da privatização como solução para todos os problemas, sempre com o contraponto da Lava Jato. Se o Estado aparelha os serviços públicos para operar a corrupção, não seria mais lógico cortar o mal pela raiz? Privatiza-se o que for possível, terceiriza-se o que sobrar e assumisse-se essencialmente o mínimo — aquela parte do Estado que hoje a Constituição Federal ainda obriga o poder público a assumir, mas que a amanhã, quem sabe, com o pacote de flexibilização que se avizinha, pode permitir que o Estado encolha ainda mais.
É preciso deixar claro que o conteúdo da entrevista de Hartung à Época não tem nada de novo. Basta olhar para o retrospecto dos seus dois governos, e neste terceiro não é diferente. Ele sempre negligenciou as áreas essenciais e deu prioridade às empresas. Evitou fazer concursos públicos para não aumentar a folha de efetivos do funcionalismo, abusando das contratações temporárias, mesmo quando foi necessário desafiar a CF. Esse modelo sucateou os serviços públicos, tornando-os mais ineficientes, desvalorizando o servidor e reduzindo a qualidade na ponta do atendimento à população.
Em relação às privatizações, não é de hoje que Hartung vem falando em vender a Cesan e outros ativos do Estado. Quem não gostaria de comprar a Cesan? Uma empresa que tem monopólio de mercado e precisa controlar o consumo porque tem mais demanda do que água.
Hartung nunca escondeu também que sempre quis pedagear as rodovias estaduais, apesar da experiência negativa com a Rodosol, que mantém tarifas altas e opera sub judice. O caso segue judicializado à espera de um parecer que aponte se a concessionária teria ou não que cessar a cobrança e ainda devolver dinheiro ao Estado.
Aliás, quando Hartung fala da privatização como se tivesse inventado a roda, ele pondera que privatizar é um ótimo negócio desde que feito com regras claras e segurança jurídica, destacando o trabalho das agências reguladoras. Na teoria uma maraviha, mas na prática…
O consumidor conhece muito bem a “eficiência” das agências reguladoras. Nas experiências com as operadoras de telecomunicações, planos de saúde, e mesmo energia elétrica, água e estradas, só para citar os exemplos mais polêmicos e recordistas de queixas.
O discurso do governador Paulo Hartung é muito bom para ele mesmo. Para trabalhar sua imagem de dentro para fora e também de fora para dentro. Para fora, ele consegue se projetar como uma liderança que, embora de um Estado pequeno, vem provando que é possível enfrentar e vencer a crise. É claro que ele não revela a que custo. As pessoas que não conhecem o Espírito Santo só precisam conhecer o lado bom da história, através dos produtos de sucesso que ele exibe como marcas sociais do seu governo: Escola Viva, Ocupação Social, hospitais terceirizados com atendimento de portas fechadas entre outros atrativos, que não passam de embalagens vazias que reluzem na vitrine.