O comportamento da Assembleia Legislativa não mudou quase nada em relação às prestações de contas realizadas nos dois mandatos anteriores de Paulo Hartung. A sessão dessa quarta (4) manteve o clima de cordialidade e bom-mocismo por parte dos deputados, combinados com certa dose de subserviência. Para não perder o costume.
O discurso que pode ter soado maçante para o telespectador da TV Ales, e até mesmo para a claque presente, foi cuidadosamente “esculpido” pelo governador. Ele queria pronunciar cada uma das palavras do discurso, sem improviso. Tanto que fez um banzé quando percebeu que uma das folhas sumira misteriosamente.
Apesar do zelo, não havia novidade no discurso. Em resumo, ele repetiu o chororô da “herança maldita” de Casagrande. Mesmos os deputados com DNA governista devem ter se perguntado por que o “chefe” continua batendo na mesma tecla. Se tivessem coragem, questionariam: “Será que não está na hora de tocar o barco pra frente e parar de olhar no retrovisor?” Se a pergunta fosse feita, receberiam um “não” bem sonoro como resposta.
Ora, Hartung sabe que herdar um governo que reconhecidamente também teve virtudes, sobretudo nas áreas em que ele recebeu nota zero, leia-se: saúde, segurança e educação, é uma missão muito mais difícil do que se imagina. Em 2003, no seu primeiro mandato, ele, de fato, herdou um Estado repleto de problemas. Mas mesmo assim precisou recorrer ao marketing para eleger o crime organizado como inimigo número um do povo capixaba. Passou oito anos martelando que a onça não estava morta, mas apenas combalida, podendo despertar a qualquer instante.
O discurso, assim como o de hoje, era temperado com uma alta carga de terror. Para se reeleger, sem susto, em 2006, Hartung pediu novamente a união das “pessoas de bens”, para que ele pudesse manter o Estado na rota do desenvolvimento e a onça sob controle.
Em 2014, porém, para tirar a prerrogativa da reeleição das mãos de Casagrande, Hartung precisou evoluir sua estratégia de marketing. O discurso do apocalipse começou a ser semeado quase um ano antes da eleição. A economista Ana Paula Vescovi, que sempre fez parte do núcleo duro de Hartung, foi encarregada, com a ajuda de Haroldo Rocha, de espalhar o vírus do caos.
Foi justamente o argumento do caos que Hartung usou para justificar sua entrada na disputa e desfazer o pacto que daria a prerrogativa de mais um mandato a Casagrande.
Há quem estranhe a insistência de Hartung em continuar usando o discurso do caos mesmo depois das eleições. Mas a validade do discurso não se extinguiu com a fim das eleições, porque é justamente essa a estratégia para mostrar, ao final dos quatro anos de governo, que foi ele, mais uma vez, que tirou o Espírito Santo do buraco.
É aí que entra propaganda política novamente para convencer a população da tese da terra arrasada legada por Casagrande. Palavras de Hartung: “(…) nos últimos quatro anos o Espírito Santo zerou a sua poupança, duramente conquistada até 2010. O desequilíbrio fiscal se instalou, e perdemos a capacidade de investimento com recursos próprios. O Espírito Santo foi arremessado ao passado, retrocedendo mais de uma década. Assim, temos hoje uma tarefa gigantesca de reorganização do Estado para colocá-lo novamente nos trilhos. Mas com estratégia correta e unidos, vamos retomar o rumo da prosperidade nas terras capixabas”.
O pano de fundo da estratégia de marketing que sustenta esse discurso fica a cargo de Ana Paula Vescovi. A titular da Fazenda recorre à “contabilidade criativa” para transformar em números o discurso do caos. A economista tem “capacidade criativa” de torcer os números tanto para transformar o Espírito Santo numa Suíça como numa Serra Leoa.
Mas o pulo do gato da estratégia de marketing é caprichar na embalagem para esconder o vazio do produto. Há um cuidado especial com as ações nas áreas de saúde, segurança e educação, calcanhar de Aquiles dos dois governos anteriores de Hartung.
O desafio de transformar Paulo Hartung na Madre Teresa de Calcultá de terno e gravata se tornou ainda mais difícil depois do bom trabalho que Casagrande fez nessas áreas.
A saída foi criar um “grandioso” projeto para cada uma das áreas. Para a Educação, o “Escola Viva”. O plano não é espalhar escolas vivas pelo Estado inteiro. Isso custaria muito dinheiro. Mas fazer quatro ou cinco escolas ao longo dos quatro anos de governo já é mais do que suficiente para expor na vitrine.
Na saúde é a mesma coisa. Não existe um grande projeto para dar um choque na saúde, como ele prometera durante a campanha. Mas se Hartung conseguir entregar o Hospital Geral de Cariacica, “paga” sua promessa e ainda fica com crédito. De quebra, ele ainda pretende concluir o as obras do Novo São Lucas. Se na inauguração do Jayme dos Santos Neves Casagrande teve a grandeza (ou a ingenuidade) de dividir a coautoria da obra com Hartung. No caso do São Lucas, Hartung fará questão de dizer que o hospital não foi entregue antes à população por incompetência do ex-governador.
Hartung fecha o tripé da área social com as ações na segurança. Ele que assistiu inerte a morte de mais de 14 mil pessoas durante os seus dois governos, pode se redimir agora, por ironia, à custa do trabalho de Casagrande.
O produto já estava pronto e se chama, ou se chamava, Estado Presente. Até o operador é o mesmo: André Garcia. Só falta finalizar a embalagem, que já tem nome e sobrenome: “Ocupação Social”.
Essas embalagens vistosas devem segurar a imagem do governo pelos próximos quatro anos. No final do seu governo, Hartung ainda poderá dizer, de boca cheia, que mesmo com toda a dificuldade, conseguiu recolocar o Espírito Santo nos trilhos do desenvolvimento e devolver a esperança para o povo capixaba.
Na área social, poderá exibir as “grandes obras” do seu governo, que apesar de ocas, vão reluzir majestosas em suas embalagens bem acabadas.

