Houve, outrora, um muro separando dois mundos, uma pátria – nesse 23 de agosto choramos juntos sobre as pedras do Muro de Berlim. Do final da Segunda Guerra até a construção do muro da vergonha, como foi cognominado, em 1961, mais de 3.5 milhões de cidadãos do leste da Alemanha fugiram para o lado oeste. A maioria eram jovens das classes mais altas, com dinheiro para subornar autoridades. Aí levantaram o muro, e das 10.000 tentativas de escapar do lado comunista, 5.000 conseguiram. O saldo estimado de mortes tentando a travessia varia de 100 a 200 pessoas.
A história da humanidade está manchada por muitos acontecimentos vergonhosos. As guerras e perseguições religiosas e políticas mataram mais que os desastres naturais. Imaginemos um muro cortando a pacata cidade de Vitória, dividindo-a em duas partes incomunicáveis. Por onde passaria? Talvez aproveitando a divisão natural da baía, o muro separasse Vitória e Vila Velha, e mesmo englobando duas cidades, ainda afetariam menos pessoas do que o muro que feriu Berlim.
Guido Morais, morador de Vitória, namorava Melinda Dias, residente em Vila Velha. Aí, um dia, os moradores da ilha depararam com um muro muito alto enjaulando a cidade, levantado das águas poluídas da baía na calada da noite, feito obra de um Marlim enlouquecido. Quem de um lado estava não poderia transpor as pontes, englobadas também na sana separatista. Se casados fossem, Guido e Melinda conseguiriam autorização para visitas esporádicas, mas um simples romance não estava listado nos direitos ao visto de passagem.
Embora algumas pessoas conseguissem transitar de um lado para o outro, a maioria dos moradores ficou isolada no seu lado de mundo, não importando suas razões para a mudança. Guido era arrimo de mãe viúva e doente, único homem entre três irmãs menores… não teve como abandonar a família. Melinda tentou, mas nunca obteve o visto de passagem, também devido a problemas familiares – um irmão homossexual, que os donos do muro consideravam pessoas indesejáveis.
Uma antiga cantiga de rodas falava em um muro muito alto que devia ser removido para o príncipe encontrar sua princesa. Acho que era isso, tem muito tempo. A princesa ficava no centro da roda, e o príncipe passeava em volta, cantando, “Eu tirando uma pedra…” Os outros respondiam, “Uma pedra só não chega…” Cada pedra removida era uma criança que saía da roda, até não haver mais obstáculos para os dois se encontrarem. De pedra em pedra, o muro era derrubado e eles viviam felizes para sempre. Como nos contos de fadas.
Na vida real as coisas não são tão bonitas. O muro de pedra e cimento levou 28 anos para ser demolido. O mundo em volta assistia sem intervir, era melhor suportar um muro separatista do que iniciar mais uma guerra sangrenta, que de guerras tivemos sempre farta seara. Guido e Melinda esperaram. Cada pessoa amiga que conseguia passar de um lado para o outro levava notícias, cartas, fotos, presentes… Um dia o muro caiu – ironicamente, por engano – como caem reinos e reis, ditaduras e ditadores. Guido e Melinda foram felizes por 28 anos. Depois perdi a conta.

