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Sábado, 24 Outubro 2020

Um muro longe de Berlim

 

Os vizinhos das casas 58 e 60 na Rua das Discórdias tornaram-se bons amigos desde que ali chegaram. Jovens e bem sucedidos, saíam juntos, trocavam fitas de vídeo, testavam novas receitas nos almoços de domingo, e logo abriram uma brecha na cerca, facilitando o ir e vir no que virou quintal comunitário. Vamos construir uma piscina! comunica o Moreira;  Faremos uma churrasqueira e compramos os móveis, diz o Fernandes.
 
Vieram os filhos, um menino na casa dos Moreira, uma menina na casa dos Fernandes, que brincavam e estudavam juntos, e o que restava da cerca sumiu de vez. Caindo no lugar comum, o sonho dos Moreira e dos Fernandes era que os filhos se casassem. Mas um pequeno problema com a mangueira dos Moreira, cujos galhos danificaram o telhado dos Fernandez, pôs fim à grande amizade.
 
Um muro veio substituir a cerca inexistente, que os vizinhos ironicamente apelidaram de Muro de Berlim. Os filhos se casaram com quem amaram, e graças à globalização seguiram rumos diversos - um trabalha na China, a outra casou com um português e mora em Portugal. Os vizinhos do lado não foram convidados para os casamentos nem levantaram bandeira branca nos enterros de Tânia Moreira ou de Luís Fernandes.
 
O passar do tempo foi cruel com as casas 58 e 60, e ambas precisam de reformas. Os filhos, ocupados demais com a vida e os próprios filhos, não concordam com os gastos. Vende o imóvel e compra um pequeno apartamento, sugere o filho por e-mail. O valor do imóvel não compensa a reforma, sugere a filha no Facebook. Mas Roberto e Clara não querem morar em apartamento.
 
Numa primavera qualquer, depois de um inverno muito chuvoso, o muro de Berlim desaba. Mas no quintal de Clara algo mais acontece... Numa pequena rachadura no piso,  uma minúscula planta consegue romper o bloqueio do cimento e explode em flores. Talvez uma esperança de vida rompendo o cimento de sua vida solitária.
 
Roberto cuida do muro caído, tirando um a um os tijolos soltos, limpando e empilhando, um em seu quintal, outro no quintal da vizinha. Serão reusados no novo muro, e não quer complicações com a dona da casa ao lado. Todas as manhãs Clara vai para o quintal cuidar da planta, mas entendendo que o muro é problema dos dois, resolve ajudar na limpeza. Em silêncio.
 
Alto era o muro, e pondo um tijolo cá outro lá, um bom-dia afinal rompe o bloqueio da discórdia. Que ela responde com um sorriso, logo acompanhado de um Como-tem-passado... Entre um cumprimento e outro, acabam desabafando seus problemas iguais: vender ou consertar a casa, refazer o muro ou visitar o filho ou a filha...
 
Depois de 20 anos de discórdia eles chegam ao óbvio consenso: vender uma das casas e com o dinheiro consertar a outra, dividindo-a em duas. A casa de Roberto foi vendida, valia mais por causa da piscina. A casa de Clara foi reformada mas não precisou ser dividida. Ironicamente, no dia em que eles se casaram, a prefeitura mudou o nome da rua para João da Paz, em homenagem a um padre que por muitos anos pacificou a comunidade.

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